Vivemos uma época curiosa. Nunca houve tanta informação disponível e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil encontrar crianças verdadeiramente presentes no mundo ao seu redor. Basta entrar em uma sala de espera, um restaurante ou uma praça para perceber a cena que se tornou comum: pequenos olhos fixos em uma tela, dedos deslizando sobre um celular e um silêncio que muitos adultos confundem com tranquilidade.
Há quem veja nisso modernidade. Eu vejo uma infância sendo substituída.
Em nossa casa, eu e minha esposa fizemos uma escolha que muitos consideraram radical. Nosso filho Eben acaba de completar dois anos sem televisão, sem desenhos animados, sem vídeos no celular e sem qualquer forma de entretenimento digital. Não porque sejamos contra a tecnologia, mas porque acreditamos que existe um tempo certo para tudo. Antes de conhecer um mundo virtual, queríamos que ele conhecesse o mundo real.
E foi justamente nesse espaço que os livros encontraram lugar.
Enquanto muitas crianças aprendem a reconhecer personagens por meio de vídeos, Eben os descobriu folheando páginas, ouvindo histórias e observando ilustrações. Em um vídeo que acompanha este artigo, ele identifica sentado em um tapete na sala, do seu jeito, os personagens da Turma da Mônica; ou, como ele ainda pronuncia com a espontaneidade própria da infância, a "Mônquina". Não foi um aplicativo que lhe ensinou isso. Foi um livro aberto, um adulto sentado ao seu lado e tempo dedicado à leitura.
Talvez seja justamente o fato de nunca entregar tudo pronto o maior presente que um livro oferece.
Diante de uma tela, a imaginação recebe tudo acabado. As vozes já existem. Os movimentos já estão definidos. As expressões já foram criadas por alguém. O cérebro apenas acompanha. Já o livro convida a criança a construir mentalmente aquilo que lê ou ouve. Cada personagem ganha um rosto imaginado, cada cenário nasce dentro da mente, cada história se transforma em um exercício silencioso de criatividade.
A leitura também ensina paciência, algo que as telas raramente conseguem oferecer. A criança aprende a esperar o virar da página, a observar detalhes, a fazer perguntas, a interromper a história para conversar. Descobre que o conhecimento não precisa chegar em segundos e que existe prazer em descobrir lentamente.
Isso não significa que toda tecnologia seja prejudicial. Ela faz parte do nosso tempo e certamente fará parte da vida de Eben. Mas acreditamos que os primeiros anos são preciosos demais para serem entregues às notificações, aos vídeos curtos e aos algoritmos que disputam a atenção até mesmo dos adultos.
Nesse período da infância de Eben, brincar continua sendo o melhor laboratório. Correr, cair, levantar, empilhar os blocos que a professora Maria Batista mandou pra ele, desenhar, ouvir histórias narradas pela mãe, conversar com os irmãos, observar um pássaro no telhado da casa do vizinho, descobrir o formato de uma folha, reconhecer as cores do céu ao entardecer, admirar a lua. São experiências que nenhuma tela consegue reproduzir.
Faz tempo que Eben conhece todas as letras do alfabeto, identifica diversas formas geométricas, reconhece cores pouco comuns, forma pequenas palavras com letras móveis e demonstra uma curiosidade que nos surpreende diariamente. Não escrevo isso para afirmar que toda criança sem telas terá o mesmo desenvolvimento. Cada criança possui seu próprio ritmo. Escrevo apenas para testemunhar que, quando oferecemos tempo, presença, livros e diálogo, os resultados podem ser extraordinários.
Talvez o maior desafio da nossa geração não seja ensinar os filhos a usar a tecnologia. Eles aprenderão isso naturalmente. O verdadeiro desafio é garantir que, antes de conhecerem o mundo digital, eles aprendam a amar o mundo real.
Se conseguirmos preservar a infância por apenas alguns anos, permitindo que ela seja feita de livros, brincadeiras, conversas, descobertas e afeto, talvez estejamos oferecendo algo que nenhuma inovação tecnológica será capaz de substituir.
E, depois de algumas explicações de especialistas, seguimos acreditando que uma criança que aprende primeiro a folhear um livro talvez cresça sabendo folhear a própria vida com mais curiosidade, sensibilidade e sabedoria.
Fonte/Créditos: Por Edelvânio Pinheiro