O dinheiro do mês – reservado para as contas de água, luz e internet – foi sacrificado para tratar dos ferimentos de um gato de rua que havia sido atacado por outro animal na Travessa Botafogo, no bairro São José, em Teixeira de Freitas, onde eu morava com a família antes de adquirirmos o nosso próprio imóvel. Uma das patas estava gravemente ferida e um sangramento no pescoço causava uma angústia profunda. Minha filha, que estava finalizando o curso de Medicina Veterinária na UESC e aguardava ansiosamente o dia da apresentação do trabalho de conclusão, imediatamente se dedicou a dar os primeiros socorros ao pobre felino.
Há tempos, o gato já frequentava a área da frente da nossa antiga residência, onde eu colocava ração e água todos os dias, sem falta. Já havia uma relação sincera de cuidado e carinho de todos nós com ele, e eu sentia que aquele já era o momento de dar-lhe um nome. O gatinho, embora não fosse nosso oficialmente, fazia parte do cotidiano da nossa casa, como uma presença constante e querida.
Como tenho o hábito de homenagear pensadores e intelectuais – como George Michael, Belchior e já tive Olavo Bilac – decidi chamá-lo de Drummond, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. Minhas filhas e meu neto adoraram o nome, embora, quando brincavam com ele, o chamassem carinhosamente de "gatão".
Drummond, na verdade, era um gato sem raça definida, fruto de um cruzamento com siamês. Era, digamos, um vira-lata diferenciado. Quando nos mudamos para a nossa nova casa, Drummond foi adotado oficialmente. Não havia um único dia em que qualquer um de nós chegasse e não fosse recebido por ele com um miado clássico, como se dissesse: "Estava sentindo sua falta." Ele era a alegria de todos nós, o elo silencioso que unia nossas rotinas e nos fazia sentir um amor incondicional.
No meio do ano, infelizmente, Drummond começou a se debilitar. O avanço de sua condição era dolorosamente visível, e cada dia parecia um teste de resistência para ele e para nós. Minha filha, já atuando como veterinária, dedicou-se com fervor a cuidar dele, juntamente com a equipe da Clínica Zoopet, onde trabalha. Cada pequeno passo na tentativa de salvá-lo era uma batalha contra a dor e a impotência. Durante uma semana de tratamento intensivo, foi necessária uma intervenção cirúrgica para a colocação de uma sonda, por onde ele bebia água e se alimentava. Era angustiante vê-lo tão frágil e dependente, lutando para sobreviver.
Impotente diante da situação, eu acompanhava os cuidados diários que minha filha oferecia a Drummond, tentando desesperadamente manter o felino vivo. Todos os dias, o gatinho era colocado em um compartimento apropriado para o transporte de animais e levado para a clínica. À noite, em casa, o cuidado continuava. Muitas noites, minha filha dormia no sofá da sala, ao lado de Drummond, acomodado em um puff, com a sonda e o soro ligados ao braço exigindo sua constante atenção. Cada madrugada era uma mistura de esperança e desespero, entrelaçados com o desejo ardente de que ele se recuperasse.
Um dia, após um intenso dia de trabalho na clínica, minha filha chegou em casa exausta, mas antes de qualquer outra coisa, se sentou no chão para medicar Drummond. Ele estava inerte, uma sombra do gato vibrante que conhecíamos. Mesmo assim, isso não impediu que ela o acariciasse, oferecendo-lhe todo o carinho e conforto possíveis.
Algum tempo depois, houve uma pequena chama de esperança: Drummond reagiu, e mesmo muito debilitado, voltou a miar, a afiar as unhas no sofá e a fazer tudo o que fazia antes da doença, incluindo se deitar de barriga para cima para receber carinho e ser chamado de "gatão". No entanto, nas últimas 72 horas, ele sofreu uma forte recaída, e a esperança começou a se esvair. Faleceu no dia 1º de julho de 2019, numa madrugada gelada de segunda-feira, deixando um vazio imenso em nossos corações e a imagem de um gato que havia sido o modelo perfeito para tantas fotos carinhosas.
A mim coube a triste e dolorosa missão de enterrá-lo. Senti como se estivesse sepultando um dos membros mais nobres da minha família, alguém cuja presença preenchia nossos dias com alegria e conforto. A perda era profunda, uma dor que parecia cortar fundo, revelando a extensão da nossa afeição por ele.
Além de enterrá-lo, providenciei um epitáfio inspirado no próprio Drummond, o poeta: “Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.” Essa frase parecia capturar, com elegância e tristeza, o espírito do nosso querido Drummond, que continuará vivo em nossas memórias e em nossos corações, como um símbolo de amor e devoção incondicional.
Fonte/Créditos: Crônica de Edelvânio Pinheiro