Na última sessão da Câmara Municipal de Itanhém, um fato chamou atenção. Durante o uso da tribuna, o vereador Jurandir (DC), historicamente aliado do prefeito Bentivi (PSB), fez uma crítica direta à gestão municipal ao afirmar que a prefeitura estaria promovendo descontos nos salários de servidores público.
A fala, ainda que breve, carregou o peso de uma revelação rara: um vereador da base reconhecendo publicamente um problema que afeta diretamente os trabalhadores do município. Esse gesto, em um ambiente político onde a blindagem da gestão costumava ser regra entre os aliados, mostra que a relação entre prefeito e base já não é a mesma.
Mais do que uma crítica pontual, o que se viu foi um sinal inequívoco de desgaste. Quando um aliado se distancia do prefeito em plena sessão da Câmara, isso indica que a confiança e a solidez política do gestor estão seriamente comprometidas. Jurandir fez questão de reforçar que não é “funcionário de Bentivi” e que não concordará com tudo que o prefeito disser ou fizer.
Se Jurandir não estiver jogando conversa fora, a sua fala parece um divisor de águas na relação entre vereador e prefeito.
Esse tipo de declaração não nasce do nada. Ela surge quando o ambiente já está saturado de cobranças internas e insatisfações acumuladas. Surge quando vereadores percebem que carregar o peso da gestão pode ser prejudicial à própria imagem. Surge quando a figura do prefeito deixa de ser um ativo político e passa a representar risco eleitoral. Acredito que essa análise é, no mínimo, sensata.
E esse risco está cada vez mais evidente.
O desgaste interno vivido pelo governo Bentivi caminha na contramão de suas pretensões eleitorais. Com a aproximação das eleições, o prefeito precisa de uma base unida e motivada para impulsionar os candidatos que pretende apoiar. No entanto, o que se vê é o contrário, aliados se descolando, críticas emergindo e uma gestão perdendo força diante da opinião pública.
Para servidores, o tema dos descontos salariais é sensível e mobilizador. Para vereadores, é um tema perigoso, e ninguém quer se associar a um desgaste que recai diretamente sobre o prefeito. Para Bentivi, isso significa perda de influência, de confiança e, principalmente, de capacidade de transferir votos.
A fala de Jurandir na última sessão da Câmara, além de uma crítica; foi um sintoma. Ela expõe uma fragilidade crescente, um prefeito que já não controla sua própria base e que se aproxima de um ciclo eleitoral com uma blindagem política cada vez mais perfurada.
Se a tendência continuar, o prefeito Bentivi deve enfrentar seu pior teste nas próximas eleições, o de descobrir que, enfraquecido e sem unidade, dificilmente conseguirá garantir bons resultados para os deputados que escolher apoiar. E esse será o reflexo mais claro de uma gestão que perdeu, aos poucos, sua capacidade de liderar, até mesmo entre os seus.
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