*Edelvânio Pinheiro
Itanhém precisa parar de eleger os “espertinhos” para a Câmara de Vereadores. Os espertinhos — aqueles que transformam o voto popular em moeda de troca, usam o mandato como trampolim pessoal e tratam a coisa pública como extensão do quintal de suas casas. Eles precisam ser confrontados nas urnas. A população deve mostrar a eles que o mandato concedido pelo povo não é prêmio, não é emprego vitalício, muito menos balcão de negócios. É instrumento de representação, legislação e fiscalização. Só isso, e nada mais.
A pergunta que precisa ser feita nas ruas, nas igrejas, nas escolas e nas redes sociais é simples e direta: você, eleitor de Itanhém, votou para ter um vereador atuante, que fiscalize contratos, acompanhe licitações da prefeitura, cobre transparência das ações do prefeito e proponha leis? Ou votou para sustentar privilégios, empregar amigos e familiares e alimentar a engrenagem da política suja que há décadas trava o desenvolvimento de sua terra natal?
Como se sabe, o papel do vereador é legislar e fiscalizar o Executivo municipal; e somente isso já justificaria os altos salários que, todo dia 20, caem na conta deles, além de outros benefícios, como décimo terceiro e férias, como se estivessem submetidos ao regime da CLT.
Itanhém também precisa, urgentemente, parar de eleger prefeitos que se cercam de grupinhos com o objetivo claro de beneficiar interesses particulares. São alianças formadas a partir de investimento político-financeiro. Esses grupinhos investem em um nome com potencial eleitoral — como já ocorreu em disputas anteriores — para, depois da vitória, controlar os cofres públicos, direcionar contratos, influenciar decisões administrativas e garantir o retorno do “apoio”.
Quando a função de vereador é abandonada em troca de silêncio conveniente, cargos comissionados e acordos de bastidores, e, também, quando a população elege prefeitos que, antes de tudo, já fizeram acordos com aqueles que aprenderam a operar dentro das brechas da legalidade para transformar o poder público em instrumento de interesses privados, quem paga a conta é o povo. Falta remédio e médico nos postos e no hospital; faltam cirurgias para quem convive diariamente com dor e sofrimento; falta manutenção nas estradas principais e vicinais; falta investimento na educação e no esporte. Sobram, porém, justificativas esfarrapadas e discursos cínicos e ensaiados, apresentados — com boné na cabeça ou não, com alguns goles de bebida ou não — em palanques improvisados sobre poucos metros de calçamento construídos após mais de um ano de cobranças de internautas e denúncias da imprensa local.
Esse modelo é perverso. Ele transforma a eleição em sociedade empresarial e o município em fonte de lucro para pequenos grupos. O prefeito deixa de governar para todos e passa a governar para poucos. E, quando a prioridade deixa de ser o interesse público, o resultado é sempre a estagnação, obras inacabadas, serviços precarizados e descrédito total da população.
Itanhém precisa compreender, de forma definitiva, que desenvolvimento não nasce de conchavos. Não surge de acordos escusos nem de gabinetes fechados. Desenvolvimento exige planejamento, responsabilidade fiscal, transparência e coragem para romper com práticas viciadas. Exige vereadores independentes, que não se ajoelhem diante de prefeito algum, e prefeitos que não se submetam a grupos que financiam campanhas esperando tornar-se donos de secretarias rentáveis e obter retorno para seus negócios.
A sociedade itanheense também tem responsabilidade nesse processo. Não basta reclamar depois da eleição. É preciso observar histórico, postura, coerência e, principalmente, independência. É necessário compreender que o voto é instrumento de transformação, mas também pode se tornar instrumento de perpetuação do atraso quando entregue a pessoas que, descaradamente, fazem parte de um jogo que enoja qualquer cidadão com o mínimo de senso político.
Há ainda aqueles cidadãos — geralmente homens de negócios — que se apresentam como ferrenhos críticos de quem está no poder, vociferam contra a corrupção e se colocam como paladinos da moralidade pública, até que uma licitação milionária em seu favor seja autorizada pelo prefeito. Nesse momento, trancam a própria boca com um cadeado e entregam a chave ao chefe do Executivo.
As lideranças políticas que realmente desejam o crescimento de Itanhém, precisam, de forma urgente, romper com a política de favores. É necessário posicionar-se contra a cultura do apadrinhamento e defender transparência total nos contratos, nas nomeações e nos gastos públicos. É preciso incentivar a formação de quadros técnicos e éticos; e não de cabos eleitorais disfarçados de gestores ou profissionais que recebem salários públicos, embora nada saibam fazer além de atuar em períodos eleitorais e praticar descaradamente o puxassaquismo nas redes sociais de quem ocupa o poder.
Itanhém tem potencial econômico, humano e geográfico para avançar. O que falta é coragem e decisão política daqueles que possuem condições reais de mudar essa triste realidade. E essa decisão não deve começar quando o período eleitoral chegar. Deve começar com a construção de um projeto sério, honesto e amplamente debatido com a população e com as lideranças políticas que ainda não se renderam a esse sistema ou que aceitarem lerem na cartilha da mudança.
Enquanto Itanhém continuar elegendo os espertinhos e legitimando grupinhos que tratam a prefeitura como investimento privado, o município continuará patinando. No dia em que a população e os líderem bem-intencionados decidirem que querem, de fato, representantes e não aproveitadores, o desenvolvimento deixará de ser promessa e discurso bonito de palanque, e Itanhém finalmente sairá da lama.
*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo, licenciado em Letras Vernáculas e pós-graduado em Ciências Políticas.