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Quinta-feira, 12 de Fevereiro 2026
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Quando falta leitura tudo vira fake news

É preciso dizer com todas as letras que erro jornalístico não é fake news.

Quando falta leitura tudo vira fake news
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Vivemos um tempo estranho, em que qualquer erro virou fake news e qualquer correção passou a ser tratada como confissão de má-fé. O termo fake news, que deveria ser usado com rigor técnico e responsabilidade, passou a servir como rótulo fácil, muitas vezes lançado por jornalistas e assessores de comunicação que, paradoxalmente, deveria compreender melhor o seu significado. 

É preciso dizer com todas as letras que erro jornalístico não é fake news.

Fake news é mentira deliberada. É a fabricação consciente de um fato inexistente. Ela nasce da intenção, não da falha. Já o erro técnico ocorre quando o jornalista trabalha com dados reais, mas os interpreta de forma equivocada, classifica mal uma informação ou falha na leitura de uma fonte. São coisas completamente diferentes. Exigir essa compreensão de quem só escreve com a caneta da inteligência artificial talvez seja demais; mas quem já passou por um bacharelado em jornalismo deveria compreender isso com clareza.

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Confundir esses conceitos é grave. Primeiro, porque banaliza um termo que surgiu para enfrentar um problema sério da democracia contemporânea. Segundo, porque transforma o debate público em um tribunal moral permanente, onde não há espaço para correção, apenas para condenação.

No jornalismo profissional, o erro sempre existiu. O que define a ética não é a ausência dele, mas a postura diante dele. Corrigir, esclarecer e dar transparência são obrigações elementares de quem leva a informação a sério. Quando isso acontece, estamos diante de um processo jornalístico saudável, não de desinformação.

O mais preocupante é perceber que muitos profissionais da comunicação, inclusive assessores públicos, utilizam o rótulo “fake news” como estratégia de desqualificação, não como conceito técnico. Ao invés de esclarecer o público, preferem atacar o mensageiro. Ao invés de apresentar dados completos, escolhem o recorte conveniente. Isso, sim, empobrece o debate e enfraquece a credibilidade institucional.

Chamar todo erro de fake news é perigoso porque cria um ambiente hostil à autocrítica e à transparência. Se errar virou crime moral, ninguém mais corrige nada. E quando a correção deixa de existir, o jornalismo deixa de cumprir sua função social.

É preciso resgatar o significado das palavras. Fake news é mentira intencional. Erro técnico é falha humana corrigível. Misturar as duas coisas não é ignorância inocente, muitas vezes é conveniência discursiva.

O jornalismo não pode ser refém disso. Nem os profissionais que ainda acreditam que informar bem exige responsabilidade, humildade e compromisso com a verdade, mesmo quando ela exige reconhecer um equívoco.

E talvez seja exatamente aí que reside a maior dificuldade desse debate. Discutir conceitos como ética, erro técnico e fake news exige algo básico: leitura. Leitura de manuais, de teoria, de história do jornalismo. É difícil avançar quando o debate é travado com quem nunca passou por obras como A Ética do Jornalismo, de Eugênio Bucci, Teoria do Jornalismo, de Felipe Pena, ou mesmo textos clássicos sobre responsabilidade profissional e democracia.

Sem livros, sobra o achismo. Sem estudo, qualquer erro vira fake news e qualquer correção vira ataque. E aí o problema já não é mais o jornalismo. É a recusa em aprender.

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O Água Preta News começou a operar, oficialmente, em 30 de agosto de 2016. A data – dia e mês – é a mesma do aniversário do poeta e jornalista Almir Zarfeg, cuja obra poética de estreia, “Água Preta”, deu nome ao site de notícias e entretenimento.

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