Crônica de Edelvânio Pinheiro*
Há dias em que a vida parece perder a delicadeza. Ela entra sem bater à porta, simplesmente muda os móveis da alma, espalha o medo pelo chão e nos obriga a conviver com uma realidade que jamais escolhemos.
Nessas horas, percebemos o quanto somos frágeis e pequenos. Descobrimos que existem batalhas que não se vencem com dinheiro, influência, inteligência ou força. Existem dores diante das quais todas as respostas humanas se tornam insuficientes.
É curioso como passamos boa parte da vida acreditando que controlamos os nossos caminhos. Fazemos planos, traçamos metas, imaginamos o amanhã. Até que um dia percebemos que há acontecimentos que não nos pedem opinião. Eles simplesmente chegam. E, quando chegam, arrancam de nós qualquer sensação de controle.
Talvez seja justamente nesses momentos que Deus se revele com mais clareza.
Não porque Ele elimine imediatamente a dor. Não porque retire todos os espinhos da caminhada. Mas porque, de alguma maneira que a razão não consegue explicar, Ele sustenta quem já não encontra forças para permanecer de pé.
Há dias em que a oração já não é feita de palavras. Ela é feita de lágrimas. De silêncios. De olhares perdidos. De um coração que apenas repete que não sabe mais como continuar.
E, surpreendentemente, continua.
Quem nunca precisou de Deus talvez imagine que a fé seja uma fuga da realidade. Mas quem já atravessou noites longas sabe que a fé não faz desaparecer a tempestade; ela apenas impede que a tempestade leve embora aquilo que ainda resta de nós.
Hoje compreendo que os maiores milagres nem sempre são aqueles que mudam as circunstâncias. Às vezes, o maior milagre acontece dentro da gente. É quando, mesmo machucado, o coração continua acreditando. É quando os joelhos insistem em dobrar-se. É quando a esperança permanece respirando, mesmo diante de um sofrimento que renasce a cada amanhecer.
Seria muito mais dolorido suportar os empurrões que a vida nos dá se Deus não estivesse por perto.
Porque, quando tudo parece desabar, é Ele quem permanece de pé ao nosso lado. E, enquanto Sua presença nos sustentar, nenhum sofrimento terá a última palavra.
Porque, no fim das contas, não é a ausência da dor que nos mantém vivos. É a certeza de que não estamos caminhamos sozinhos.
Fonte/Créditos: *Edelvânio Pinheiro é escritor e jornalista.