O coração de Orlando Ferraz, o Pipoquinha, parou às 10h40 da manhã de um domingo cinzento, desses que nem o céu consegue disfarçar o luto. Foi ali, em sua fazenda no Curvelo da Conceição, município de Itanhém, cercado pela terra que tanto amava, que ele partiu. Morreu em casa. E isso tem um peso especial, pois há quem diga que morrer em casa é uma bênção.
Tinha 64 anos. Era o penúltimo de sete filhos de seu Juvêncio e dona Pipoca, um casal que nunca precisou dizer muito para ensinar tudo. Deixaram uma herança que não se mede em hectares nem em cifras, mas em respeito, palavra cumprida, mesa farta e mãos calejadas de dignidade. Gente que ensinou os filhos a crescer sem atropelar ninguém, a ter orgulho do próprio nome e a não virar o rosto pra dor de ninguém.
Pipoquinha foi embora calado, como era seu jeito de ser. Ele era um riso fácil nos domingos de futebol, um braço estendido na hora da necessidade, um irmão que sabia ouvir, um pai de olhos marejados e um filho que nunca esqueceu as raízes.
Morou 11 anos nos Estados Unidos. Como todo imigrante, sangrou em silêncio. Trabalhou de sol a sol, engoliu o nó na garganta quando a saudade da família e dos amigos apertava. Fez de tudo, pegou no pesado, falou inglês no improviso, foi invisível nas ruas americanas e ainda assim conseguiu guardar um sorriso para os que ficaram no Brasil. Mandava dinheiro, cartas, brinquedos e lembranças, como se pudesse embalar um pedaço de Itanhém e colocar nos Correios.
Mas era no futebol onde ele respirava mais fundo. Canhoto de categoria rara, foi um ponteiro dos tempos em que essa posição era mais arte do que função. Quando jogava, Gringo e Jason disputavam pra tê-lo no time. Pipoquinha desenhava cruzamentos com muita precisão. Ele cruzava a bola sempre acreditando que o gol viria. E quase sempre vinha.
Seu corpo será sepultado nesta segunda-feira, dia 2 de junho, às 10h30, em sua cidade natal.
E entre todos os que choram, há uma dor que insiste em permanecer. Ayalla Ferraz, sua filha de apenas 15 anos, agora carrega o peso do mundo nos ombros. Além do pai, ela perdeu a referência, a risada, o abraço apertado. Perdeu quem tornava a vida um pouco mais leve.
E a cena que ficará gravada, talvez para sempre, será a de Ayalla sentada na varanda da fazenda, olhando o sol se pôr. Ela ainda vai esperar, por muitos dias, que ele surja ao longe. Mas ele não virá. Só o vento virá. E o vento trará o som de sua voz, o eco de seus passos, a lembrança do homem que foi gigante, mesmo tendo aprendido a usar a voz apenas em tom baixo e suave.
Vá em paz, Pipoquinha!
Fonte/Créditos: Foto: Pipoquinha, de óculos, com o irmão Hinho Ferraz.