*Crônica de Edelvânio Pinheiro
“Trabalhei uma vida para eles.” Foi o que o meu amigo Ranyere Correia me disse, sem rodeios, no dia em que o parabenizei pela formatura da filha. A frase, seca como um galho no inverno, tinha o peso de uma biografia inteira. Em cada sílaba, ouvia-se o eco de despertadores na madrugada, o cheiro de café frio tomado às pressas, o cansaço que se acumula nos músculos já castigados pelas estações do tempo.
Ele e sua esposa, Sheyla, sempre caminharam lado a lado, um erguendo as paredes da casa e o outro enxugando as lágrimas que a vida, teimosa, insiste em arrancar. São daqueles casais que entendem, na pele, que o amor mais duradouro não é o dos romances grandiosos, mas o que se materializa em boletos pagos no prazo, em sapatos escolares comprados sem pesar o preço, em sonhos pessoais adiados sem alarde, tudo em nome de um amanhã mais leve para os filhos.
Kerolayne, agora Dra. Kerolayne Correia, chegou onde chegou pelo brilho próprio, que é inegável, mas também porque atrás dela havia um chão construído tijolo a tijolo por mãos calejadas e corações que aprenderam a se gastar em silêncio, como uma vela que queima para iluminar o caminho. Hoje, ao exercer a medicina na área de dermatologia clínica e estética, ela carrega na assinatura profissional a história de uma família construída com amor, dedicação, perseverança, sacrifício e fé. Cada receita que ela assina é, de certa forma, assinada também pelas mãos do pai; cada diagnóstico preciso, um reflexo do cuidado minucioso da mãe.
E não é só ela. Gustavo, o irmão, trilha a mesma estrada luminosa, já estudante de Medicina. Dois filhos, dois sonhos pesados demais para se carregar sozinhos. Mas ali estava o casal, incansável, transformando cada sacrifício em degrau, cada preocupação em alicerce. A vitória deles é o testemunho silencioso de que, mesmo quando o corpo pediu descanso, a alma encontrou um reservatório infinito de força quando se tratava de Kerolayne e Gustavo. Os pais lutaram contra a dureza da vida com as armas mais nobres e discretas: a paciência de Jó, a renúncia anônima e o trabalho diário que dificilmente vira manchete no Água Preta News, mas que é o único capaz de sustentar destinos.
Hoje, enquanto muitos aplaudem a médica de jaleco branco — e é justo que aplaudam —, os olhos deste cronista se voltam para o casal que permanece nos bastidores. Sheyla e Ranyere carregam, em silêncio, mil batalhas vencidas, com o orgulho tranquilo de quem sabe que o fruto não cai longe da árvore porque a árvore se moveu para sustentá-lo.
E então, volto àquela frase. “Trabalhei uma vida para eles.” Já não vejo mais essa frase como uma simples declaração de fato, mas como um poema completo. Nela há a doce quietude de uma missão cumprida de Sheyla e Ranyere.
E assim, no final desta história, compreendo que o pai e a mãe não se esvaziaram para preencher os filhos. Eles se transformaram. Transformaram o suor em semente, o tempo em raiz, a própria vida em seiva. E agora, no outono de seus dias, podem olhar para a floresta que ajudaram a criar — uma filha médica, um filho a caminho — e sentir a plenitude de quem se tornou eterno através daqueles que floresceram. O cansaço deles agora é a sombra que acolhe; seus sacrifícios, a terra fértil onde novas conquistas brotarão. Eles não se gastaram. Plantaram-se. E na altura que os filhos agora alcançam, brilha, serena e eterna, a luz que um dia acenderam.
E talvez, amigo Ranyere Correia, seja isso o que faz da vida uma obra de arte; exatamente quando um pai e uma mãe se oferecem em silêncio, como quem doa o próprio coração, e descobrem que todo sacrifício floresce em vitória quando os filhos realizam seus sonhos. Kerolayne e Gustavo seguirão escrevendo suas histórias, mas cada conquista deles sempre terá a marca indelével de Ranyere e Sheyla, dois heróis anônimos que escolheram amar até o limite, e nesse amor infinito encontraram a mais bela forma de eternidade.
*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.