Portal de notícias

Aguarde, carregando...

Terça-feira, 13 de Janeiro 2026
MENU

Notícias / CRÔNICAS

“Pai, afasta de mim esse cálice”

Resiliência sempre foi uma palavra bonita, mas hoje ela tem o rosto da minha filha Thathira Mickaelle.

“Pai, afasta de mim esse cálice”
A-
A+
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Crônica de Edelvânio Pinheiro*

Dia 11 de novembro amanheceu pesado para mim. Foi o dia em que minha filha primogênita, a mais cuidadosa com todos nós, recebeu o diagnóstico de que um tumor na parótida — essa pequena glândula salivar que fica atrás da orelha — é maligno. A partir daí, tudo passou a correr contra o tempo, inclusive minha própria alma. Fiquei desestruturado. Recentemente parei meus programas de sábado na Rádio Master FM, suspendi os contos da série Contos de Domingo no Água Preta News, interrompi o livro que escrevo sobre meu pequeno Eben Howard. E, como se não bastasse, minhas noites, que já eram curtas por conta de uma ansiedade antiga, ficaram ainda menores, quase míseras.

Resiliência sempre foi uma palavra bonita, mas hoje ela tem o rosto da minha filha Thathira Mickaelle. Eu, que busquei ensinar a ela tantas coisas, grandes e pequenas, agora é ela quem me dá lição de grandeza, como a gentileza diante das batalhas, a leveza no meio da tempestade e a coragem que não sei nem de onde é a origem.

Leia Também:

Tenho repetido essa palavra, resiliência, no meu café da manhã, no meu anoitecer e, no fim da noite, quando sempre me ponho de joelhos para telefonar para Deus. Ainda assim, há momentos em que o coração aperta de um jeito que nenhum dicionário explica, e a tela do computador onde escrevo neste momento fica embaçada, como o dia chuvoso lá fora nesta madrugada de sexta-feira. Meus olhos marejam, pesam, e dificultam enxergar as linhas que tento alinhavar com o mesmo cuidado que este humilde escriba sempre dedicou a contar o dia a dia e o sofrimento dos seus conterrâneos. Só que agora o enredo é outro, escrevo sobre a minha própria dor, e descobrir essa dor dobrada em palavras é um peso que parece destruir a gente por dentro.

Ontem, minha filha publicou um vídeo explicando ao mundo o que está enfrentando. Eu não esperava dela tamanha coragem e, até o presente momento, não tive força psicológica para ouvir suas palavras. Não fizemos isso antes porque estávamos tentando nos achar no meio do choque e resolver o que era urgente. À noite, através de alguns amigos soube que o vídeo estava circulando por aí. Liguei para ela, como sempre faço, e conversamos sobre a necessidade de se abrir, de pedir oração e até ajuda.

E a ajuda veio.

E continua vindo. Veio para além do dinheiro, veio em forma de palavras de amor, de fé, de esperança. Mas orações é o que mais precisamos nesse momento. Porque são as preces que movem o espírito nos momentos mais duros, são elas que carregam um pouco das dores que, sozinhos, talvez não suportássemos. Somos gratos a cada pessoa que tem dobrado os joelhos por nós, que tem ofertado o que pode, que tem lembrado nosso nome diante de Deus.

A chuva continua caindo forte lá fora. Ainda é madrugada e escuto bem baixinho na minha biblioteca a música Sol, do Jota Quest, com aqueles versos que parecem escritos para um dia como este:

“Ei, dor! Eu não te escuto mais,
você não me leva a nada.
Ei, medo! Eu não te escuto mais,
você não me leva a nada.”

E é isso. A dor talvez ainda converse comigo por um bom tempo. A lágrima talvez continue vindo, como a chuva teimosa lá de fora. A tela do computador vai embaçar de novo, mas a minha filha sabe que estaremos juntos em cada etapa dessa batalha, que lutaremos de mãos dadas, com amor e muita, muita fé.

Resiliência, assim como a canção Sol e o sorriso de Thathira Mickaelle, é o que nos faz acreditar em Deus mesmo quando o horizonte pesa. E enquanto caminho com o coração apertado, faço a oração que brota de quem está fortemente ferido: “Pai, afasta de mim esse cálice”.

 

*Edelvânio Pinheiro é escritor, jornalista e pai de Thathira Mickaelle.

Comentários:
Água Preta News

Publicado por:

Água Preta News

O Água Preta News começou a operar, oficialmente, em 30 de agosto de 2016. A data – dia e mês – é a mesma do aniversário do poeta e jornalista Almir Zarfeg, cuja obra poética de estreia, “Água Preta”, deu nome ao site de notícias e entretenimento.

Saiba Mais
WhatsApp Água Preta News
Responderemos assim que possível
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR