Por Edelvânio Pinheiro*
Vi na internet, no início desse mês, um vídeo do senador Jorge Kajuru falando algumas verdades a um senador bolsonarista. No calor do embate, ele se disse fã de Voltaire e citou a famosa frase “Posso discordar de todas suas palavras, mas as defenderei até a morte o seu direito de dizê-las.” Nesse ponto, o senador se equivocou.
É verdade que a frase ganhou fama mundial e se tornou quase um símbolo da liberdade de expressão, estando espalhada em livros, discursos políticos e até em postagens de redes sociais. No entanto, Voltaire jamais escreveu essas palavras. É uma situação semelhante à da poesia No Caminho com Maiakóvski, do brasileiro Eduardo Alves da Costa, que foi erroneamente atribuída ao poeta russo Vladimir Vladimirovitch Maiakóvski.
A origem está no livro The Friends of Voltaire, publicado em 1906 pela escritora e biógrafa Evelyn Beatrice Hall. Ela não quis reproduzir uma frase literal de Voltaire, mas resumiu, em uma expressão forte e elegante, aquilo que representava o espírito do filósofo francês. O problema é que, com o tempo, essa síntese passou a circular como se fosse uma citação fiel, enganando até gente bem-intencionada, como Kajuru.
Para confirmar isso, não fiquei apenas no que já sabia; baixei a obra e terminei de lê-la nesta quinta-feira (28). E, como já se passaram mais de cem anos desde a publicação, a obra não possui mais proteção por direitos autorais. Está disponível para qualquer leitor que queira, como eu, buscar a verdade na fonte.
A frase reflete sim o pensamento de Voltaire, mas não saiu de sua pena. É uma daquelas confusões que a história gosta de pregar, e que só se desarma com leitura e atenção. Por isso, vale o esclarecimento, para não repetirmos erros, mesmo que inofensivos à primeira vista.
Depois da leitura de pouco mais de 300 páginas demorei encontrar a tão comentada frase, pois a forma usada por Evelyn Hall em sua obra é mais explicativa e indireta. Ela escreveu “I disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it.”. Busquei uma tradução no Google e achie essa, mais adequada à nossa gramática “Eu desaprovo o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo.”
E, por falar em ser fã, eu sou fã da sinceridade de Kajuru. Pode até se equivocar em uma citação, mas não se equivoca quando resolve dizer, sem rodeios, o que pensa. Votaria nele se fosse candidato pela Bahia.
*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), escritor e tem licenciatura plena em Letras Vernáculas pela UNEB e pós-graduação em Ciências Políticas,