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Terça-feira, 13 de Janeiro 2026
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Estou fragilizado, mas sigo bom de briga no mundo líquido de Bauman

Um gesto de sensibilidade em tempos líquidos e a dignidade de separar política de humanidade

Estou fragilizado, mas sigo bom de briga no mundo líquido de Bauman
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Crônica de Edelvânio Pinheiro*

 Se os ventos do norte não movem moinhos, é preciso mudar a direção, buscar outras alternativas, ou, como Sangue Latino sugere, continuar a travessia, mesmo quando o caminho parece sem fim. A canção é mais do que uma simples metáfora sobre a força das adversidades. Ela é uma reflexão sobre a necessidade de agir, mesmo quando as circunstâncias não parecem favoráveis, de fazer o possível e o impossível, de não se permitir paralisar pelo destino. A canção nos lembra que, diante das dificuldades, é preciso resistir, como quem busca novos ventos para seguir em frente.

Nesta sexta-feira (12), em Alcobaça, quando, diante do lançamento da Operação Verão 2025, me encontrei com o prefeito Bentivi. Ele estava ali, recebendo uma viatura das mãos do subcomandante-geral da Polícia Militar da Bahia, coronel Lopes, junto a outras 14 viaturas entregues aos demais prefeitos para fortalecer a segurança na região do baixo extremo sul. No meio de importantes conversas políticas, inclusive com o meu conterrâneo Adolpho Loyola, que é uma figura muito importante no cenário político da Bahia atualmente, Bentivi se afastou um pouco e, com um gesto de nobreza, se dirigiu até mim.

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Em um dos momentos mais difíceis da minha vida, quando a dor de ver minha filha Thathira enfrentando uma doença grave insiste em me atravessar por inteiro, o gesto dele foi muito mais do que uma palavra protocolar. Foi uma palavra de força e de fé. Só quem já passou por experiência semelhante sabe, de fato, o que significa assistir a um filho lutar contra uma enfermidade tão dura e injusta.

O que torna esse gesto do prefeito ainda mais significativo é o fato de partir de alguém que não integra o meu círculo político, alguém com quem, inclusive, mantenho divergências públicas. É raro, muito raro, que, em meio às disputas e rótulos, alguém se aproxime com tamanha sensibilidade, desarmado de interesses e carregado apenas de humanidade, como fez Bentivi ao me ver em Alcobaça.

Diante disso, este jornalista não poderia agir com covardia ou silêncio. Optei por narrar o episódio em forma de crônica justamente porque ela permite ir além do registro frio dos fatos. A crônica acolhe o detalhe, o sentimento, a contradição e o contexto humano que o texto jornalístico, meramente informativo, não comporta. É o espaço onde o acontecimento se transforma em reflexão, onde o gesto ganha densidade e onde a palavra cumpre sua função mais nobre, que é revelar o que, muitas vezes, passa despercebido no cotidiano.

Eu e minhas longas madrugadas sabem bem o que é conviver com a doença da minha filha e, por isso, a palavra de Bentivi teve um valor imenso. Entretanto, uma meia dúzia de pessoas, talvez movidas por rancor ou falta de empatia, chegaram ao absurdo de questionar o gesto de apoio de Bentivi. Mas o que esses poucos desgraçados não sabem é que o valor financeiro da ajuda que ele prestou à minha filha é insignificante perto do que a minha filha já recebeu de amigos de Itanhém, do extremo sul e do mundo, e de familiares, além daquilo que é mais importante em tudo isso, as orações. E o que esses miseráveis nunca vão entender é que, para mim e minha filha, não importa o valor material, mas o gesto de amor e de solidariedade, como esse demonstrado pelo prefeito, muito mais significativo do que qualquer quantia saída do bolso de quem quer que seja. Estou plenamente consciente disso e Deus sabe da sinceridade de minhas palavras.

Vale a pena lembrar que, na família que construir com uma guerreira chamada Sandra Costa, o respeito à liberdade de escolha é algo que procurei ensinar desde cedo. A mãe da minha filha, que é Estecista e estudante de Biomedicina pela Anhanguera, fez questão de se deslocar de Teixeira de Freitas até a cidade de Itanhém para votar em Bentivi nas últimas eleições, com seus próprios recursos e sem qualquer tipo de pressão. Ela fez isso porque, para nós, mais do que a política, o que importa é a convivência social, a humanidade que transcende qualquer bandeira partidária. E é bom, nesse momento, que meia dúzia de lixo social entenda, de forma definitiva, esse meu posicionamento.

Fico pensando sobre a capacidade das pessoas de verem o que realmente importa. Vivemos em tempos líquidos, como aprendi com Zygmunt Bauman na pós-graduação que fiz em Ciências Políticas, em que muitos se perdem nos julgamentos rápidos, nas críticas vazias e covardes. Mas Bentivi, ao me dar uma palavra de fé naquele sol escaldante em que estávamos, ao me olhar como um ser humano em sofrimento e não como um adversário político, me mostrou que há muito mais na vida do que as disputas ideológicas.

E é isso que, no fim, importa a todos nós, a capacidade de agir com humanidade, de se sensibilizar com o sofrimento alheio, mesmo que isso venha de onde menos esperamos. Diante da minha dor, o gesto de Bentivi me fez lembrar que, mesmo quando os ventos do norte não movem moinhos, não podemos parar de lutar. Ele fez isso com uma simples palavra, mas foi mais forte que qualquer ação política. Foi a verdadeira força da solidariedade e da empatia, duas coisas que parecem escassas neste mundo.

E, enquanto isso, sigo na luta, porque a minha filha, como eu, tem coragem de enfrentar os ventos, qualquer que seja a direção em que soprem. Nunca é demais lembrar que sempre fui bom de briga, não das que se resolvem com barulho em redes sociais, mas das que se enfrentam com a força e a coragem - isso mesmo que você imaginou meu amado leitor -, e também com as ideias, argumentos e palavras bem colocadas. Aprendi, nos bancos das escolas, das faculdades e na convivência silenciosa com minha pequena biblioteca, a respeitar o poder da palavra e a conduzi-la pelo caminho da lucidez e do convencimento.

É verdade que, neste momento, estou fragilizado, e isso é humano. Ainda assim, se Deus permitir, saberei responder aos ataques de uma minoria ruidosa com o rigor das palavras e a serenidade de quem sabe o que diz, confiando que o leitor atento, aquele que conhece minha história e acompanha meu trabalho, saberá separar o que é dor legítima do que é apenas ruído disfarçado de opinião.

 

Nota: Esta crônica foi escrita ao som da canção “Sangue Latino”, de João Ricardo e Paulinho Mendonça, nas vozes de Roberta Spindel e Ney Matogrosso.

 

*Edelvânio Pinheiro é escritor, jornalista e pai de Thathira Mickaelle.

Créditos (Imagem de capa): Zygmunt Bauman, o filósofo que nos ensinou a perceber a fragilidade dos tempos líquidos.

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