Era 29 de dezembro e já passavam das três horas da manhã no gelado inverno português, quando o 112 emitiu um alerta. Esse número, em Portugal, como em toda a União Europeia pode ser usado gratuitamente em caso de qualquer tipo de emergência que necessite de uma ambulância, de bombeiros ou da polícia.
A Polícia de Segurança Pública imediatamente se deslocou para a Rua Principal de Cabra Figa, no bairro Rio de Mouro, em Sintra, que fica a cerca de 40 minutos de Lisboa, a capital do país. Um motorista passava pelo local e foi a primeira pessoa que viu o radialista Edmilson Cândido Matos, de 45 anos, caído junto à porta do veículo que conduzia: era o táxi que ele trabalhava há cerca de uma década, depois de ter exercido a profissão de comunicador, que tanto amava, nos três primeiros anos que chegou em Portugal em busca de melhores condições de vida. Atualmente prestava serviços à empresa Táxis Cascais.
Edmílson nasceu no bucólico lugarejo de Vila Resende, a 27 km da cidade de Itanhém, para onde veio ainda muito jovem terminar o ensino médio e respirar novos ares. Em busca de oportunidades, ele acreditou que poderia ser comunicador. O radialista Carlos Andrade, que hoje é pastor da Igreja Metodista Wesleyana e é o autor das letras dos hinos oficiais dos municípios de Itanhém e Teixeira de Freitas, na ocasião, era o diretor-geral da Rádio Nova Cidade FM, de Itanhém. Com a ajuda desse diretor e com o convívio com colegas como Liebeto Gonçalves e Jan Santos, Edmilson abraçou a oportunidade e desenvolveu muito bem o que sempre gostou de fazer, falar com o povo.
Além dessa emissora, Edmilson Mattos trabalhou comigo em Itamaraju. Eu e ele e outros três colegas de rádio (Rismar Santana, Domingos Oliveira e Júlio Campos) comandamos o jornalismo na Rádio Extremo Sul, que na ocasião era AM e, depois, com a nova lei, migrou para frequência modulada. Além de repórter, Mattos apresentava comigo, ao meio-dia, o programa radiojornalístico Repórter Extremo Sul, que atualmente é comandado pela bela voz de Rismar Santana.
Em Portugal, ele que também gostava de ser chamado de Édi, além de taxista, emprestou ao TikTok, Instagram, Facebook e outras redes sociais o seu talento e sua capacidade de comunicar-se bem. Tornou-se criador de vídeos bem-humorados para a internet e se intitulava "o terapeuta do asfalto", chegando a ter cerca de 20 mil seguidores.
Imigrante há pelo menos 15 anos naquele país, Edmilson Mattos morava em um apartamento no Monte Estoril. Essa localidade é uma freguesia de Cascais, a quinta cidade mais populosa de Portugal, a apenas 33 km de Lisboa, capital do país. Freguesia seria, numa tradução mais próxima, uma espécie de distrito de um município aqui no Brasil, com a vantagem de uma divisão administrativa europeia. Lá é um lugar elegante, uma região de praia, com um belíssimo calçadão à beira-mar em frente a bares, restaurantes sofisticados e hotéis luxuosos. As ruas íngremes abrigam lojas de decoração e butiques independentes e azulejos azuis revestem o interior da Igreja de Santo Antônio do Estoril, e o Museu da Música Portuguesa reúne bandolins e violinos antigos.
Sempre bem-humorado, quase diariamente, ele gravava vídeos dentro do táxi sozinho ou com clientes e amigos. Entre as publicações mais recentes constam uma 'selfie' com o presidente português Marcelo Rebelo de Sousa e uma publicação no qual obteve resposta da atriz brasileira Luana Piovani. Muitos desses vídeos podem ser vistos aqui. Em Portugal também tentou ser humorista e participou da Academia do Humor Licor Beirão, da RFM. "Eu vou virar humorista", disse, contando uma piada em que o personagem era seu avô e no final da sua apresentação fala um trava-línguas que, não posso afirmar com segurança, deve ter sido uma das aulas da conhecida didática de Carlos Andrade, como parte dos exercícios iniciais da aprendizagem da profissão de radialista. O público aplaudiu muito. Veja o vídeo aqui.
Edmílson Matos deixou aqui no Brasil os filhos Kaliane, de 19 anos, e em Portugal, João Paulo, de 11. De acordo com a Polícia Judiciária ele já havia transportado, na noite do último Natal, André Rodrigues, o homem que lhe tirou a vida para roubar pouco menos de 100 euros, um brasileiro de 29 anos, usuário de drogas e conhecido da polícia como alguém extremamente violento. Nesse primeiro contato com Edmílson Mattos, o criminoso certamente estudou a vulnerabilidade da profissão de taxista em Portugal e, naquele fatídico dia, calou a voz do filho da terra de Água Preta, que acreditava que, ao cruzar o Atlântico em buscar de melhores meios de sobrevivência para si e para sua família, jamais seria vítima da violência gratuita, como se vê por aqui, na terra que Portugal colonizou.
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Fonte/Créditos: Crônica de Edelvânio Pinheiro