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Domingo, 03 de Maio 2026
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Educar é também caminhar na beira do oceano

Descalço, ele caminhava comigo na beira da água com aquela firmeza ainda vacilante dos que estão descobrindo o chão.

Educar é também caminhar na beira do oceano
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*Crônica de Edelvânio Pinheiro

O mar estava azul de verdade. Não aquele azul de livro didático, mas um azul vivo, que se mistura com verde e que só o olho atento consegue perceber. E foi ali, entre o vento e o barulho das ondas, que eu fui à praia pela segunda vez com meu pequeno Eben.

Um ano e seis meses de vida. Um ano e seis meses de mundo.

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Descalço, ele caminhava comigo na beira da água com aquela firmeza ainda vacilante dos que estão descobrindo o chão. Segurava minha mão com a confiança absoluta de quem acredita que o pai sustenta o universo com a força do Hulk, o superherói que ele já conhece e admira. 

Claro que fico encantado ao ver Eben correr em direção às ondas. Mas o que realmente me comove é ouvi-lo descobrir o mundo em voz alta. Quando aponta para o guarda-sol e diz a cor certa. Quando distingue o azul profundo do céu do lilás da camiseta de uma mulher que passou à nossa frente. Quando identifica o laranja do pôr do sol sem confundir com o vermelho que o antecede no horizonte.

Ah! O lilás ele chama de roxo, porque a mãe ensinou assim. “Ôxo”, ele diz. “Ôxo”, desse jeitinho mesmo.

E isso também tem explicação. Na fase em que está, por volta de um ano e meio, é comum que a criança ainda não consiga articular bem o encontro consonantal “r” + vogal no início da palavra. O som do “r” no início de “roxo” é produzido mais ao fundo da boca, com uma leve fricção do ar, e exige um controle articulatório que ainda está em amadurecimento nessa fase da infância. Como essa coordenação ainda está em desenvolvimento, ele simplifica o som, omitindo o “r” inicial. Assim, “roxo” vira “ôxo”.

Na fonologia infantil, isso é chamado de processo de simplificação fonológica, um caminho natural até que a fala amadureça. Não é erro. É etapa. É construção.

E, sinceramente, quando ele diz “ôxo”, o mundo fica ainda mais bonito.

Do ponto de vista do desenvolvimento infantil, isso não é acaso. Por volta dos 12 aos 24 meses, o cérebro da criança passa por um salto extraordinário na formação de conexões neurais. As áreas visuais, que já identificam cores desde cedo, começam a se integrar com as áreas de linguagem. Agora, além de enxergar a cor ele passa a nomeá-la. E nomear é organizar o mundo.

Cores como rosa, roxo e laranja são mais complexas porque não são consideradas “cores primárias”. Elas resultam da combinação de outras cores e exigem uma discriminação visual mais refinada. O cérebro precisa comparar tonalidades, perceber variações sutis e associar aquilo a uma palavra específica. Quando uma criança de um ano e meio consegue fazer isso, significa que seu sistema perceptivo e linguístico está dialogando com eficiência admirável. E, na qualidade de pai desse rapazinho, fico muito feliz.

Mas ali, na praia, nada disso tinha cara de teoria. Tinha cara de encanto.

Ele também já conhece os números de um a quatro. Ele não conhece apenas os símbolos escritos. O que ele possui é algo ainda mais fundamental; é a noção de quantidade. E eu acho isso incrível.

Quando Eben aponta para o céu e diz “duas estrelas”, ele está demonstrando o que os psicólogos chamam de correspondência um a um, a capacidade de associar cada objeto contado a uma palavra-numero. Quando vê muitas pessoas e exclama “tantão”, está revelando que compreende a ideia de pluralidade, de conjunto grande, mesmo sem dominar a matemática formal.

A escrita do número 2 é apenas um código. Mas entender que duas cadeiras são mais que uma e menos que três. Isso é construção cognitiva profunda.

E isso não se ensina com apostilas e nem com pressão. Muito menos antecipando a escola. Isso se ensina como a mãe dele, a poeta Eliene Lima, faz: conversando.

Dizendo: “Olha o mar azul.”
Perguntando: “Quantas cadeiras têm ali?”
É contando bois na estrada, cadeiras na sala, estrelas no céu. É permitindo que o erro seja parte do processo. É repetindo com paciência. É vivendo junto. Assim como faz a mãe dele.

A praia virou sala de aula sem que ele percebesse. A areia era textura. O vento era sensação. O mar era ciência. O céu era paleta de cores.

Ensinar cedo não é acelerar nada. É potencializar a infância. É compreender que o cérebro infantil é uma terra fértil e que cada palavra dita com afeto é uma semente. O aprendizado mais poderoso acontece no vínculo, quando a criança se sente segura para explorar.

Enquanto ele caminhava em direção à espuma das ondas, eu percebi que eu estava ali para enxergar. Ele me mostrou que o azul nunca é só azul. Que o “tantão” é mais bonito do que qualquer termo técnico. Que duas estrelas são suficientes para iluminar um pai inteiro.

Ensinar os pequenos desde já é não esperar que cresçam para começar. É entender que a infância não é preparação para a vida. É a própria vida acontecendo.

Naquele final de tarde, andando na praia com Eben, sob o céu aberto e ao som do mar, reforcei a compreensão de que educar é muito maior do que aquilo que os livros nos ensinam. É também caminhar de mãos dadas na beira do oceano, apontando o mundo com palavras e deixando que meu caçula me aponte o infinito.

*Edelvânio Pinheiro é escritor, autor de sete livros, e jornalista.

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