Hoje comprei três livros em uma loja no shopping Pátio Mix, em Teixeira de Freitas. Dois deles são infantis — A Bezerra Bela e Animais do Jardim — para o meu bebê de apenas 10 meses. O terceiro, Do Contrato Social, de Jean-Jacques Rousseau, é, na verdade, uma reposição para a minha biblioteca. Já li esse clássico, mas meu exemplar está velho, marcado pelo tempo e pelas anotações nos cantos das páginas, que fiz recentemente durante minha pós-graduação em Ciências Políticas. E foi entre a delicadeza dos livros para meu filho e a densidade filosófica de Rousseau que nasceu essa reflexão, que compartilho com os leitores do site Água Preta News.
Dar livros a um bebê pode parecer, à primeira vista, um gesto de afeto ou de estímulo precoce. Mas é muito mais do que isso. É a introdução silenciosa a um contrato com a cultura, com a linguagem e, por extensão, com a própria sociedade. Rousseau escreveu que “o homem nasce livre, mas por toda parte encontra-se acorrentado”. E para que essas correntes não se tornem grilhões de ignorância, intolerância e desigualdade, é preciso firmar com as crianças, desde cedo, um outro tipo de contrato, o da liberdade que vem pela leitura.
Rousseau, em Do Contrato Social, propõe que a sociedade só é legítima quando baseada em um acordo coletivo, no qual os indivíduos abrem mão de certas liberdades naturais em troca de proteção e bem comum. Esse pacto não é imposto, mas construído pela vontade geral, visando o equilíbrio entre liberdade e ordem. Seu pensamento revolucionário questiona estruturas opressoras e defende que a verdadeira autoridade emana do povo.
Da mesma forma, ao apresentar livros a uma criança, estamos estabelecendo um microcontrato social — um compromisso com o conhecimento, a empatia e a autonomia. Rousseau acreditava que a educação era fundamental para formar cidadãos conscientes, capazes de exercer sua liberdade com responsabilidade. E esse processo começa muito antes da alfabetização formal; começa no toque das páginas, no contato com as cores e formas, no afeto compartilhado durante a leitura.
Os primeiros livros do meu filho seguem a perspectiva de Maria Montessori, pedagoga que revolucionou a educação infantil ao defender que a criança é um ser ativo, curioso e capaz de direcionar seu próprio aprendizado. Sua teoria enfatiza a importância de um ambiente preparado, com materiais que estimulem os sentidos e a independência.
Para Montessori, os livros infantis além de entretenimento, são ferramentas de desenvolvimento. Eles devem ser concretos, com ilustrações realistas e texturas que convidem à exploração. A Bezerra Bela e Animais do Jardim, com suas imagens vibrantes e possibilidades táteis, seguem essa proposta, permitindo que o bebê interaja com o livro de maneira sensorial, construindo suas primeiras noções de narrativa e mundo.
Montessori também defendia que a leitura precoce — ainda que não decodificada — fortalece a concentração, o vocabulário e o vínculo afetivo. Quando leio para meu filho, não estou apenas apresentando palavras, mas criando um ritual de conexão e segurança. É nesse espaço de acolhimento que ele começa a assimilar, mesmo que intuitivamente, que os livros são portas para o mundo.
Quando entrego a meu filho um livro, mesmo que ele ainda não saiba ler, mesmo que morda as páginas ou apenas observe as figuras, estou propondo a ele um pacto de pertencimento. Um convite ao mundo das palavras, das ideias e das possibilidades. Estou, ainda que de forma simbólica, oferecendo as ferramentas para que um dia ele seja um cidadão consciente, capaz de compreender que viver em sociedade exige escolhas, limites e responsabilidades.
Rousseau defende que a legitimidade de um governo nasce do consentimento dos governados, e que o pacto social deve buscar o bem comum. Não se pode esperar esse senso de coletividade e justiça de alguém a quem foi negado, desde o início da vida, o acesso ao conhecimento e à sensibilidade. Ler, ou ter acesso à leitura, é uma forma de cidadania. É um direito, mas também um gesto de construção social.
Então, não é apenas por amor ou pelo desenvolvimento cognitivo que entrego livros a Eben Howard. É por acreditar que esse gesto simples é, também, um ato político. Uma semente plantada para que ele saiba, desde cedo, que o mundo pode ser mais justo, mais livre e mais bonito, especialmente quando visto pelas páginas de um bom livro.
Fonte/Créditos: Por Edelvânio Pinheiro