Um amigo me enviou mensagens mostrando que internautas, estrategicamente pagos com cargos na prefeitura, defendem o prefeito Bentivi de críticas e atacam pessoas nas redes sociais. Foi então que lembrei de John Calhoun, cientista cujos experimentos estudei durante minha pós-graduação em Ciências Políticas. Como sabemos, para compreender política é necessário entender a relação social; e isso também vale para o mundo virtual.
Por algumas vezes nos meus artigos de opinião e crônicas, e também no rádio, lamentei, e continuo lamentando, o comportamento do internauta. Covardes viraram valentões e idiotas se tornaram intelectuais depois do advento das redes sociais. É a mágica do teclado; basta alguns cliques e pronto: o tímido vira gladiador, o medíocre se veste de sábio, e o vazio se enche de um suposto conhecimento. Nas redes sociais, a coragem não vem da personalidade, nem o conhecimento dos gênios e teóricos, mas da distância física e da ilusão de que, atrás de uma tela, ninguém é de carne e osso.
Essa fauna virtual me lembra imediatamente dos experimentos de John Calhoun, o cientista americano que criou um paraíso para ratos, disponibilizando para eles comida, água, abrigo, temperatura ideal, e assistiu, pacientemente, enquanto eles caminhavam para a própria ruína. Na vigésima quinta tentativa, que ficou conhecida como “Universo 25”, ao eliminar as necessidades básicas e os riscos da vida, Calhoun eliminou também o sentido de existir daqueles animais. Isso deixou os animais com energia sobrando e sem destino, transformando aquela sociedade em isolamento, agressividade gratuita e comportamentos absurdos. No fim, mesmo cercados de abundância, os ratos simplesmente desistiram de viver.
Ao ver o que acontece nas redes sociais, é impossível não lembrar dos experimentos de Calhoun. O mundo virtual nos oferece abundância de voz, palco e plateia. Não é preciso lutar para ser ouvido, nem estudar para opinar, nem conquistar espaço pelo mérito. Basta abrir uma conta, digitar qualquer bobagem e esperar os aplausos da própria bolha. Sem a luta por conhecimento ou relevância, a energia intelectual e emocional migra para o que é mais fácil, brigas inúteis, ataques pessoais e exibições patéticas de “superioridade” digital.
O que era para ser um campo fértil de ideias virou um ringue de egos frágeis. Gente que não tem coragem de sustentar um argumento no mundo real vive de demolir o outro na internet. Ouso dzier que é o “universo 25” humano, só que com Wi-Fi, com ratos gigantes correndo em círculos atrás de curtidas, enquanto a empatia e o bom senso apodrecem esquecidos num porão digital.
A lição que fica é incômoda para todos aqueles que têm o mínimo conhecimento do desenvolvimento da sociedade. Recursos ilimitados e facilidades extremas não nos tornam capazes nem melhores; pelo contrário, muitas vezes nos revelam piores. Hoje, isso se vê claramente quando internautas, pagos com cargos na prefeitura, embora nada ou pouco fazem, defendem o prefeito Bentivi e atacam críticos nas redes sociais, sem qualquer diálogo, conhecimento ou reflexão. E talvez a grande batalha do nosso tempo não seja por espaço, comida ou abrigo, mas por propósito e responsabilidade no uso das ferramentas que temos. Se não encontrarmos uma direção para essa energia solta, corremos o risco de repetir, no universo digital, o mesmo destino trágico dos ratos de Calhoun.
Fonte/Créditos: Por Edelvânio Pinheiro