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57 anos depois, Caetano, Chico e Gil repetem o grito pela democracia

Desta vez, não se trata de tanques nas ruas ou censura explícita, mas de uma manobra constitucional que, sob o pretexto de proteger mandatos, cria um escudo quase intransponível para políticos suspeitos de crimes.

57 anos depois, Caetano, Chico e Gil repetem o grito pela democracia
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Não estava vivo em 1968. Só conheci aquele tempo pelas páginas dos livros de história e pelas imagens amareladas de estudantes, artistas e intelectuais que ousaram enfrentar a ditadura. No dia 26 de junho daquele ano, nomes como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque marcharam ao lado do povo no Rio de Janeiro, protestando contra um regime que tentava calar vozes e impor o medo como política de Estado.

Corta agora para 21 de setembro de 2025. Quase seis décadas depois, os mesmos gigantes da música brasileira voltam às ruas da mesma cidade, agora contra a chamada PEC da Blindagem, apelidada pelo povo de PEC da Bandidagem. A coincidência de datas além de histórica, é simbólica. Os que ontem cantaram contra a repressão militar hoje cantam contra a blindagem da impunidade.

Caetano e Gil, com as marcas do tempo mas a mesma coragem de sempre, entoaram versos que atravessaram gerações: “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”. Mais do que música, era manifesto. Chico Buarque e Gil resgataram a força de “Cálice”, composta nos anos mais duros da ditadura. A canção, cujo título joga com o duplo sentido de “cálice” (taça de sofrimento) e “cale-se” (ordem de silêncio), simboliza como o poder sempre tentou emudecer os inconformados. É a essência de uma luta que se repete; o autoritarismo muda de roupa, mas continua tentando calar quem denuncia suas distorções.

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Desta vez, não se trata de tanques nas ruas ou censura explícita, mas de uma manobra constitucional que, sob o pretexto de proteger mandatos, cria um escudo quase intransponível para políticos suspeitos de crimes. A PEC da Blindagem estabelece que só com autorização das próprias Casas Legislativas será possível abrir ação penal contra parlamentares no Supremo Tribunal Federal. Isso amplia o foro privilegiado até para presidentes de partidos, restringe prisões e centraliza medidas cautelares. Em outras palavras, entrega aos próprios acusados o poder de decidir se podem ou não ser julgados.

O recado dos artistas é claro. Democracia não se protege com blindagem, mas com transparência e responsabilidade. Se a ditadura militar usava a força e o AI-5 para amordaçar, o Congresso de hoje tenta usar a Constituição para se autopreservar. O nome pode mudar, mas o efeito é o mesmo, um abismo entre representantes e representados, um muro de silêncio entre a sociedade e aqueles que deveriam servi-la.

Djavan, Ivan Lins e outros que se uniram ao ato, representam a continuidade dessa resistência cultural. Porque não é só política, é também estética e memória. Quando a música se levanta contra o arbítrio, ela nos lembra que cidadania não se terceiriza.

É simbólico, e ao mesmo tempo doloroso, perceber que 57 anos depois os mesmos artistas ainda precisem sair às ruas para defender que justiça não pode ser privilégio. O Brasil parece condenado a reaprender, geração após geração, que democracia só sobrevive quando a lei alcança a todos, inclusive, e principalmente, os que fazem as leis. Entre democracia e barbárie, não há meio-termo. E eu escolho ficar com a democracia e a justiça.

Fonte/Créditos: Por Edelvânio Pinheiro

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