Sonhei com você, sonho adormecido, não inventado. Não ia lhe contar, mas agora conto... Porque é tudo verdadeiro.
Estávamos de máscara na Avenida Getúlio Vargas. Eu ia, enquanto você vinha na calçada em frente à Casa das Cópias, nas imediações do Casagrande. Queixo, boca e nariz escondidos. Cena mais romântica!
Olhos à mostra, não deu outra, atração à primeira vista. Fisgado como um peixe, não pensei duas vezes, dei meia-volta e segui-a, tomando o cuidado de manter a distância prescrita pelas autoridades sanitárias. Aparentemente, você não se incomodou com minha presença. Próximo passo foi a abordagem...
– Oi, lindeza!
Em resposta, você me devolveu um olhar de soslaio e seguiu seu caminho, sem conceder proximidade ou qualquer intimidade. Eu seguindo de ladinho, simulando distância, doido para me jogar à sedução. Me atirar ao chão.
– Tudo bem?
– Estou tentando ficar bem, mas você está dificultando as coisas! Mantenha-se afastado!
– Eu... queria apenas saber sua graça. Nem precisa tirar a máscara – gaguejei e rimei ao mesmo tempo.
– :(
– :)
Mas você não só não revelou sua graça (pedido mais antiquado de minha parte!), como também se fez de desentendida e entrou no supermercado. Superfrustrado, eu a vi se perder por entre as gôndolas, após fazer uso do álcool em gel na entrada do estabelecimento.
Ainda pensei em permanecer ali à espera para uma última tentativa. Afinal, quem espera sempre alcança... o sol – diz a canção. Mas a vergonha na cara falou mais alto e eu segui adiante, amargurado, porque o sonho tinha virado pesadelo.
Pela primeira vez, me senti um patético em minha própria cidade e, o que é pior, sem ter escrito uma única carta de amor nesta pandemia. Um mascarado (a máscara não esconde decepção) perseguido por um vírus fdp e esnobado por uma lindeza, de quem não sabia o nome nem imaginava a cor do batom.
Pois é, não ia lhe contar, mas agora cronico!
Fonte/Créditos: Por Almir Zarfeg
Créditos (Imagem de capa): “Casal beijando de máscara”, de Di Farias, que dialoga com “Os amantes”, de René Magritte