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Quarta-feira, 21 de Janeiro 2026
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Uma crônica divina – “Gênesis e contemporaneidade” – de Wilton Soares dos Santos

Crônica

Uma crônica divina – “Gênesis e contemporaneidade” – de Wilton Soares dos Santos

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“Então Deus contemplou toda a sua criação, e eis que tudo era muito bom. Houve, assim, a tarde e a manhã: esse foi o sexto dia”...

Mas ainda houve o sábado e o domingo daquele que seria o primeiro encontro do Grupo Amigos de Itanhém-GAI. Conterrâneos vieram de todos os cantos do Brasil: do Maranhão, Piauí, Pará, Santa Catarina, Espírito Santos, Minas Gerais, São Paulo e da terra Anfitriã, nossa Bahia de Todos os Santos. Da Itália e dos EUA também vieram.

Nem me passava pela cabeça que aquela mobilização no grupo de WhatsApp ia dar em alguma coisa efetivamente. De fato, quem imaginaria que as conversas entre os conterrâneos e (quase) contemporâneos Mazza e Gudé, de esperar a pandemia passar, para se dar o confronto entre duas equipes de futebol escaladas por eles, relembrando os velhos tempos de Xurupita, pracinha da igreja, Teixeirão... Ninguém botava fé e até virou piada diante das condições físicas dos quase sessentões ou de até mais idade.

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Mazza e Betinho de Belino na administração do grupo viviam às turras com os amigos que teimavam em fazer postagens de ideologias partidárias não pertinentes ao perfil do grupo: “Amizades, lembranças, alegrias, humor... Sem interesse político e ou erótico. Amizade é tudo!”. Certo mesmo, entre tapas e beijos, a ideia do encontro volta e meia vinha à tona. Por conta da pandemia, adiou-se uma vez, adiou-se outra vez...

O propósito do grupo era tão forte, que o grupo sobrevivia mesmo com a maioria dos cerca de setenta integrantes se manterem calados. Tentativas de movimentar o grupo de saudosistas eram feitas com postagens de fotos, músicas e figuras folclóricas da Itanhém antiga. Contudo, o atual contexto político do país é de tensões e não podia ser diferente quando bolsonaristas faziam uma postagem indevida. Léi Brandão, Odalice e Nego Som não perdiam a oportunidade para soltarem seus comentários de cunho ideológico de esquerda para logo serem suspensos por um tempo do convívio com o grupo.

Com tantos membros ficando de molho constantemente devidos às postagens indevidas, mexeu-se no gerenciamento do grupo. Zau de Dolírio já entrou para o GAI como o novo administrador. Pronto. Imposto e democraticamente aceito por todos. O xerife chegou colocando ordem na casa, admitindo novos (mais velhos) membros, dizendo a que veio. Saltou-se para cerca de 120 itanheenses o grupo. Nada mais acertado, embora recebido com perplexidade. Mas logo tudo ficou justo e perfeito.

A ideia do encontro ficou fortalecida com essa mexida e com a liderança de Zau, que nada lhe passava desapercebido. As ofertas foram aparecendo: Azê doaria um carneiro, Mazza encarregou-se do gengibre, Vazim dos uísques, Eduardo Astória da banda, Sílvio Ramalho... Fizeram-se listas dos que participariam do churrasco e do baile. Cunhou-se logo uma data: 15, 16 e 17 de julho de 2022, talvez coincidindo com as férias escolares. Haveria de ser uma data diferente daquela do aniversário da cidade ou do mês de janeiro para não se confundir com a FITA (Festa de Integração de Itanheenses Ausentes e Amigos), que existiu no governo do amigo Bentivi.

Creatio ex nihilo, a partir do nada ou quase nada aconteceu que cada vez mais fomos reforçando as conexões sociais, essa sensação de se estar juntos e conectados aos amigos de décadas sem se verem, cultivando propósitos e atitudes que nos fizessem estarmos próximos. Enfim, o encontro aconteceu e fomos acolhidos, nos sentindo amados e valorizados. Em tempos tão cheios de adversidades, nada atrapalhou e tudo se fez divinamente. Tempo climático maravilhoso, serviu de argamassa para unir os amigos que não se viam há anos… há 20, 30, 40 anos. No entanto, o tempo parecia ter parado ali. Ninguém era mais que ninguém, bem rousseauniano, de que éramos naturalmente bons. Mais tarde, quem sabe, colocamos a culpa na sociedade que deprava e perverte os homens. Meninos da Praça unidos com a Gia e a Palha sem nenhum ranço. Afinal, somos todos filhos da Água Preta branca, preta, indígena, baianeira. Meninos da Medeiros Neto beira rio (a origem), da Praça Castro Alves (não sendo centro geográfico se consolida como centro da cidade), da Avenida Simplício Binas (em reverência ao seu fundador), da Rua Juracy Magalhães e tantas outras. Das meninas que passeavam sem nenhuma formalidade, de mãos dadas, dando voltas sem fim em torno da Praça da Liberdade. Recordei-me também das brincadeiras de mocinho e bandido nos fundos dos quintais desbravados pelos filhos de juiz, prefeito, servidor público, advogado, médico, pedreiro, lavrador, dono de bar, mecânico, fazendeiro, lavadeira que levavam a sério a diversão. Não havia tempo ruim para se jogar bolinhas de gude ou de china, como chamávamos os jogos na barca ou no papão. Os babas entre Praça e Gia, mais disputados nas porradas do que na bola. Quase sempre não iam até o final.

Ah! Deixa eu explicar. A Praça era a região de origem de da povoação, o centro, a Itanhém antes de sua expansão. Era na Praça da Liberdade que funcionava a feira livre. Nas redondezas estavam instaladas a prefeitura, o fórum, a delegacia, as escolas, a igreja... Sady Teixeira emancipou a vila, consolidou o município e lança Jota Pires (considerado nosso JK), segundo prefeito de Itanhém, que retira o puteiro da Gia (região úmida de brejos e com muitos sapos), e o transporta para local distante e periférico, e funda o mercado municipal. A Gia, então, eleva-se a Bairro São João. Bom, de que falávamos mesmo...

Ah, tá! O 1º Encontro do Grupo Amigos de Itanhém-GAI foi marcado pelo afeto, pela união entre “irmãos”. Algumas famílias se fizeram representar mais, como os Astória, os Murta, os Moreira Lisboa, os Reis, os Mendes, mas o peso da tradição, da amizade entre os filhos dos precursores água-pretenses foi o que prevaleceu. O acolhimento foi na AABB, na sexta-feira 15, com as apresentações e queima de fogos. De lá, saímos para o Cruzeiro Santo, local onde o “Pe. Valdir Vitorino, pedindo que sobre tal montanha situada nas proximidades de Itanhém – BA, fosse erguido um Cruzeiro e que todos que ali chegassem, atraídos pela sua misericórdia, seriam curados, obteriam graças, bênçãos e milagres”. Resou-se uma missa pelo Pe. Vagner de Melo em agradecimento ao momento e In Memoriam dos amigos que já não estavam fisicamente entre nós. De lá, seguimos para a Praça Castro Alves, no Bar Budo, para um momento de grande descontração embalados pelos músicos do grupo: Fernando Afonso, Liko Lisboa, Sadyzinho e Nem Galego. O que se seguiu? Indescritível tamanha a condição de embriaguez alcoólica e/ou de entusiasmo.

E eis que tudo era muito bom. Houve, assim, o café da manhã de sábado, coordenado por Dedé, o mesmo que teve o carneiro doado por Azê nas mãos, vivo e depois morto, e o deixou escapar num desaparecimento misterioso. A mesa do café posta por Dedé era formada por guloseimas com sabores da infância: pamonhas, geleias de Signário, chimangos, queijos, ovos caipira, bananas na terra cozidas, canjica, bolos... Seguiu-se com um Amigo Secreto coordenado por Zaany e Velani. Contudo, prefiro não comentar detalhes dos amigos Vazim e Bentivi, coisas que só o GAI é capaz de realizar e rever embaraços de infância. Houve Amigo Secreto que se desculpou por não ter comprado o presente de cinquenta reais à sua amiga e deu-lhe a “merreca” de 800 reais pelo esquecimento. Bem, não sei se a amiga perdoou tal esquecimento. Quanto ao carneiro, ainda tinha sido visto à tarde numa bacia próxima à churrasqueira na AABB...

No sábado à noite, ocorreu a festa embalada pela banda da itanheense Índira Quertins (nome artístico), que tocou músicas previamente selecionadas pelos membros do GAI, levando os jovens (Jovem Guarda) dos anos 60 ao delírio de influência, em que corpo e mente pareciam estar controlados por alguma entidade. Muita prosa boa, lembranças e atualidades, regadas a água de coco, uísques e servido um buffet dos deuses, organizados por Elane e Silvandira, no Centro de Convenções de Itanhém.

E eis que tudo era muito bom. Ainda haveria o domingo de futebol e churrasco. Inicialmente, bem lá atrás antes de tudo, seria o confronto entre as equipes de Mazza (Vila Velha) e Gudé (EUA). Nem um nem o outro apareceram - nem o gengibre. Foi, então, que Binas (descendente do fundador Simplício Binas), Xerife da Palha e peça essencial do Clube Recreativo de Resgate de Itanhém, e Bodão de Leopoldino foram intimados a assumir a coordenação do baba dominical. O resultado da pelada não poderia ser outro, um tento a um, sem direito a disputas nos penalties. Se houve contusões graves? Não. Afinal de contas, são garotos Jovem... Guarda.

Então Deus contemplou toda a sua criação, e eis que tudo era muito bom e, antes de declarar encerrado o encontro por Zau Rodrigues, houve um churrasco e muita cerveja. Também houve sorteios de brindes e... o carneiro foi visto em peças congeladas dentro de duas bacias no interior de um Volkswagen Kombi pela última vez. Dizem que foi trazido vivo da fazenda de Azê Pinto dos Reis por Serjão Pires e Dedé Gundin, que o abateram na propriedade deste último, no entroncamento de Ibirajá, mas que simplesmente desapareceu, escafedeu-se depois de levado para a AABB. Investigações estão em andamento no Grupo Amigos de Itanhém. Afinal, Deus deu a todos os animais da terra, inclusive ao carneiro doado por Azê, como mantimento e sustento.

Deus fez tudo apropriado ao seu tempo. Também colocou no coração dos membros do GAI o desejo da amizade e amor perenes. E que esse encontro tenha sido um sinal de união eterna entre todos os itanheenses deste e de outros tempos.

No último dia, Deus já havia terminado a obra que determinara; nesse dia descansou do trabalho que havia realizado, enquanto todos retornavam às suas casas.

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O Água Preta News começou a operar, oficialmente, em 30 de agosto de 2016. A data – dia e mês – é a mesma do aniversário do poeta e jornalista Almir Zarfeg, cuja obra poética de estreia, “Água Preta”, deu nome ao site de notícias e entretenimento.

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