AMOR É CEGO
Os dois eram carne e unha, feijão com arroz, como se dizia.
Um não ia tomar banho na bica sem que o outro ficasse à espreita, trepando nas árvores, esbugalhando o olho mágico da natureza.
Na hora de buscar lata d’água no rio, a tarefa era feita mano a mano, primo a primo, de sorte que a água chegava ao pote pela metade...
A história deles se resumia à parte setentrional e à meridional. A grande questão era juntar as metades da melancia e, em seguida, esparramar as sementinhas para que os pés e as mãos do idílio não se perdessem no cipoal de empecilhos e conveniências!
Pois estava escrito nas estrelas, desde sempre, que o amor em primeiro grau era impossível – um pecado, uma aberração! Aos olhos da ciência e da religião!
E não contava que um via o amor com os olhos do outro (aliás, o amor estava neles, impregnado deles, como o espírito e a matéria, a borra e o café)!
Muito menos que, daquela fruta proibida, já tivessem comido até os bagos, por assim dizer.
Ladeira abaixo, os predestinados buscavam a outra metade do amor. Ladeira arriba, os amaldiçoados deixavam escapar o líquido da vida.
Fonte/Créditos: Almir Zarfeg
Créditos (Imagem de capa): Reeleitura de "Os Amantes", de René Magritte