Era sexta-feira, o sol abraçava o dia 28 de janeiro de 2022 na cidade de Teixeira de Freitas e o calor do verão sugeria que o fim daquele dia chegaria sem maiores novidades.
No meio dos cidadãos que desde muito cedo enfrentam a labuta diária estava um teixeirense que, sem os movimentos das penas, faz uso de um triciclo não motorizado para que sua mobilidade não o deixe parado no tempo.
Já idoso e pessoa com deficiência (PCD), esse teixeirense é um personagem da vida real, com dificuldades de se locomover para percorrer, num sol escaldante, as acidentadas e esburacadas ruas e avenidas da cidade, recolhendo materiais recicláveis para ajudar no orçamento da família.
Não é uma tarefa fácil pedalar com as mãos. Além de muita força, exige-se do ilustre personagem desta crônica coragem e determinação, paciência e uma pitada a mais de fé, o combustível que seguramente nunca o deixará desistir.
Há muitos empecilhos que dificultam o trajeto de quem é PCD e vive em Teixeira de Freitas. Alguns deles por falta de capricho do poder público e outros que naturalmente fazem parte da geografia do lugar. Entre os bairros São Lourenço e Liberdade, por exemplo, há uma ladeira íngreme que atravanca todos os dias o caminho deste homem batalhador.
Pior que enfrentar essas dificuldades é um combate solitário para aquele catador de latinhas e outros materiais. Naquela sexta-feira, já no final de um dia cansativo e somando-se a isso o peso da idade, ele estava ao pé da ladeira imaginando como vencê-la mais uma vez. Aí, como sinal de reforço, surge uma guarnição do Pelotão Especial de Emprego Tático Operacional, mais conhecida como PETO, da 87ª Companhia Independente de Polícia Militar, unidade comandada pelo coronel França.
Três militares, numa atitude empática, se uniram para garantir que a ladeira jamais ganharia daquele ancião que, diariamente, combate o bom combate e guarda sua fé diante da grande dificuldade de se locomover.
O gesto nobre de Rogério, Renner e Lucas, por excelência, foi capaz de motorizar o triciclo daquele senhor, que acordou acreditando que aquele dia fosse um dia comum como todos os demais. O gesto de grandeza dos notáveis soldados acabou ganhando as páginas de portais de notícias da cidade, como o Liberdade News, e viralizando. Quem leu a reportagem se sentiu de alma afagada pela beleza do gesto.
A vida segue deixando para trás esta sexta-feira inesquecível, que nos dá lições preciosíssimas em dois pontos fundamentais: nunca se deixe vencer pelas ladeiras da vida e nunca deixe de ajudar quem estiver numa condição difícil de vencê-las.
Edelvânio Pinheiro é jornalista, militar, escritor, licenciado em Letras Vernáculas e pós-graduado em Ciências Políticas.
Fonte/Créditos: Crônica de Edelvânio Pinheiro
Créditos (Imagem de capa): Redes Sociais