A queda de parte do muro do cemitério de Ibirajá, distrito de Itanhém, no último sábado (7), é muito mais do que um estrago causado pelas chuvas. É a materialização de um descaso que já vem de longe e que agora atinge até quem já se foi.
O mais estarrecedor desse episódio é que o trecho que desabou era novo, construído em março do ano passado. Enquanto isso, a parte antiga do muro, com mais de cinco décadas de existência, segue de pé. Besteira culpar a chuva. Isso é obra malfeita. É dinheiro público literalmente jogado no lixo, coisa de prefeito que não aprendeu, ou não quer aprender, a respeitar o dinheiro do contribuinte. É também desrespeito com a memória de quem partiu e com a dor de quem ficou.
O vereador Gelson Picoli, em sua manifestação, foi preciso ao cobrar apuração e responsabilidade.
"A população paga seus impostos e merece obras bem feitas. Não podemos aceitar que serviços recém-entregues apresentem esse tipo de problema", afirmou. E Gelson está coberto de razão. Afinal, fiscalizar não é perseguição, é obrigação de quem ocupa uma cadeira na Câmara Municipal.
Mas a queda do muro de Ibirajá nos faz questionar: como um gestor que não consegue cuidar dos vivos vai ter competência para zelar pelos mortos?
A saúde de Itanhém anda de mal a pior. A população clama por exames e remédios nas redes sociais. Enquanto isso, o prefeito Bentivi simplesmente cortou as cirurgias que vinham sendo realizadas pela gestão anterior. Foram mais de 800 cirurgias, segundo o ex-prefeito Mildson Medeiros. Procedimentos que levava alívio e dignidade a centenas de famílias itanheenses.
Agora, na atual gestão as cirurgias pararam. A saúde pública definha. E o que vemos é um muro de cemitério desabando.
O problema não para por aí. As últimas chuvas também levaram embora calçamentos e meios-fios recém-construídos, alagaram casas, inclusive a de uma família com um bebê recém-nascido. O que deveria ser exceção virou regra. O que deveria ser obra virou dor de cabeça.
Ora, se a administração municipal não consegue entregar serviços de qualidade para quem está vivo — garantindo exames, cirurgias, infraestrutura urbana — como poderemos confiar que cuidará com zelo dos espaços sagrados onde repousam nossos familiares mortos?
O cemitério é lugar de memória, de respeito, de saudade. Ver um muro novo cair e expor sepulturas à beira da estrada é mais do que negligência; é afronta à dignidade humana.
A população de Itanhém e Ibirajá merece obras que resistam ao tempo. Merece saúde que funcione. Merece um prefeito que cuide dos vivos com o mesmo afinco que deveria ter ao zelar pelos mortos. Ou, pelo menos, que cuide de ambos com o mínimo de decência.
Enquanto isso não acontece, ficam as perguntas que o vereador Gelson Picoli e a comunidade fazem: quem vai pagar por esse muro? Quem vai responder pelas cirurgias suspensas? Quem vai explicar por que o muro com menos de um ano cai e o velho, com mais de 50 anos, permanece?
Os puxasacos de carteirinha, certamente.
Fonte/Créditos: Por Edelvânio Pinheiro
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