Portal de notícias Água Preta News

Aguarde, carregando...

Terça-feira, 16 de Dezembro 2025

GERAL

Quando “não é o” vira “Noel” e os mistérios da língua falada que só a linguística explica

O fenômeno é pura fonética. Em uma fala rápida e natural, como acontece nas redes sociais.

Água Preta News
Por Água Preta News
Quando “não é o” vira “Noel” e os mistérios da língua falada que só a linguística explica
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Edelvânio Pinheiro*

Prezados leitores e, em especial, a minha amiga do grupo de WhatsApp que ouviu “Noel” onde eu disse “não é o”, esta crônica é para você. Mais do que uma simples explicação, é um agradecimento. Seu equívoco auditivo na manhã desta segunda-feira (8) foi a centelha que acendeu a rápida discussão sobre a natureza viva e escorregadia da nossa “última flor do Lácio, inculta e bela” língua portuguesa.

Confesso que, ao ler seu comentário, soltei um sorriso imediato. Não era um sorriso de deboche, mas de reconhecimento. Como bacharel em Jornalismo e licenciado em Letras Vernáculas, minha trajetória sempre foi pontuada por esse duplo olhar: o do profissional de rádio, que lida com a sonoridade imediata e pragmática da fala, e o do humilde estudioso da linguagem, que busca entender as estruturas profundas que regem esses sons.

Leia Também:

Na Universidade do Estado da bahia (UNEB), mergulhamos nas teorias dos gigantes que tentaram decifrar o código humano. Ferdinand de Saussure nos ensinou a fundamentall diferença entre langue (o sistema da língua) e parole (a fala individual, efetiva). Esse caso é a materialização perfeita desse conceito; o sistema (a gramática, o léxico com a palavra "Noel") interferindo na interpretação de um ato de fala específico (parole), que era o meu áudio.

Joaquim Mattoso Câmara Jr., um dos pais da linguística moderna no Brasil, dedicou-se a fonética e à fonologia, mostrando como os sons se articulam e como são percebidos. E outro mestre, Mikhail Bakhtin, com seu conceito de enunciação, nos lembra que a compreensão de um enunciado depende não só do falante, mas também do ouvinte e do contexto. Você, como ouvinte, completou ativamente o sentido com o que seu repertório linguístico sugeriu no momento em que ouviu meu áudio no grupo, ou minha sonora, como se usa tecnicamente do rádio.

Agora vamos entender por que “não é o” soou como “Noel”.

O fenômeno é pura fonética. Em uma fala rápida e natural, como acontece nas redes sociais, quando buscamos economia de esforço. Palavras não são pronunciadas como ilhas isoladas; elas se fundem. Especificamente, ocorreram dois processos linguísticos ali na minha fala no grupo de Eliete Pinheio:

Sinalefa é um desses processos. É a fusão de uma vogal final de uma palavra com a vogal inicial da palavra seguinte. Na sequência "não é o", temos três vogais se encontrando: -ÃO, É, O. Por necessidade, esse recurso é muito utilizado em poesias que são musicadas. Digo musicadas para evitar quea algum intelectual da área não entender que faço referência ao soneto, por exemplo.

O outro processo que pude identificar em minha fala no áudio é a nasalização e ditongação. O "-ão" de "não" é uma vogal nasal complexa. Na fala rápida, essa nasalidade "vaza" e impregna a vogal seguinte "é", que perde sua força e se une ao artigo "o", que na fala assume um fonema semelhante a letra “u”. O resultado sonoro é uma sequência contínua que pode levar a um entendimento equivocado, como foi o caso da minha amiga.

Ora, a palavra "Noel" é uma sílaba forte "No" e um ditongo "el". Aos navegantes é bom explicar que estou fazendo referência à fonemas, por isso considerei “el” como um ditongo, no caso, o encontro do “é”, representado pela letra “e”, com o “u”, representado pela letra “l”.

Observe que a sequência sonora é foneticamente muito próxima. Acredito que o cérebro, num processo automático e ultrarrápido de reconhecimento de padrões, fez a minha amiga ouvi essa mistura de sons e, buscando a palavra real mais próxima chegou a "Noel".

Esta experiência vivida por mim, minha amiga e os demais integrantes daquele grupo de WhatsApp é um lembrete humilde de que a língua não é uma entidade rígida e cristalina. Ela é um organismo social dinâmico que vive na boca de quem fala e no ouvido de quem ouve. A oportunidade que tive de cursar letras vernáculas, graças ao incentivo direto da professora Regina, e de conhecer a técnica do radialista, graças ao incentivo de Carlos Andrade, me faz apreciar ainda mais esses fenômenos linguísticos. São provas concretas de como a linguagem humana é criativa, econômica e, por vezes, até ambígua, como foi o caso.

Para finalizar, agradeço à minha amiga pela oportunidade deste modesto esclarecimento linguístico que, inadvertidamente, ela acabou me proporcionou.


*Edelvânio Pinheiro é bacharel em jornalismo pela Católica (UCA) e licenciado em Letras Vernáculas pela UNEB.

 

Água Preta News

Publicado por:

Água Preta News

O Água Preta News começou a operar, oficialmente, em 30 de agosto de 2016. A data – dia e mês – é a mesma do aniversário do poeta e jornalista Almir Zarfeg, cuja obra poética de estreia, “Água Preta”, deu nome ao site de notícias e entretenimento.

Saiba Mais
WhatsApp Água Preta News
Responderemos assim que possível
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR