Há situações em que o silêncio seria a resposta mais digna. Mas quando uma professora — alguém que, em tese, deveria cultivar empatia e pensamento crítico — resolve atacar um veículo de comunicação por dar voz a uma mãe enlutada, o silêncio se torna conivência.
O comentário nas redes sociais da professora Maria Cleude Viana de Moura, da Escola Simplício Binas, sobre a matéria "Flávio Ramon não morreu, ele foi morto pela negligência criminosa do poder público que trata pobres como números", além de leviano foi um atestado de que há quem prefira o conforto do esquecimento ao incômodo da verdade. Depois que uma internauta criticou dizendo que "muitas pessoas só leem o título", a professora apagou o comentário, que já havia sido 'printado'.
A professora acusa o Água Preta News de "reviver um caso que mexe com os sentimentos da família, apenas por insatisfação política". Ora, o portal não "reviveu" nada, apenas ecoou a voz de Irislene Santos Costa, que na semana anterior havia retomado publicamente sua luta por justiça, criticando a reeleição do prefeito Bentivi, do PSB — o mesmo gestor que governou Itanhém quando seu filho, Flávio Ramon, morreu eletrocutado, aos 15 anos, em uma escola municipal com fios expostos e manutenção criminosamente negligenciada. A professora, ao que parece, não se deu ao trabalho de ler a reportagem. Se leu, ignorou o óbvio. O Água Preta News não explorou a dor alheia; documentou uma manifestação atualíssima de quem tem o direito de gritar.
É sintomático, isso mesmo, prezado leitor, um sintoma de um problema maior, algo que revela uma postura preocupante e recorrente, que uma educadora, cuja missão é ensinar sobre responsabilidade social, reduza o jornalismo a "rivalidade política". Essa professora ensina, com seu péssimo exemplo, de que a imprensa deve se calar quando uma mãe cobra respostas e que tragédias viram "máquina de oposição" quando as vítimas ousam nomear seus algozes.
Flávio Ramon não é um "caso revivido", ilustre professora. É um menino cuja morte expôs o descaso do poder público, e cuja família ainda hoje clama por justiça. Se há "insatisfação política" aqui, ela nasce da impunidade que permitiu ao responsável por essa gestão desastrosa voltar ao poder — não do portal de notícias que ousou dar nota à lembrança do acontecido feito pela mãe do adolescente nas redes sociais uma semana antes da reportagem.
A professora Maria Cleude deveria saber que educação também se faz com memória. Ensinar é lembrar que políticas públicas negligentes custam vidas, como custou a vida de Flávio Ramon, e que cobrar não é "reviver o passado", como lamentavelmente disse a professora em sua vergonhosa manifestação nas redes sociais; é, na verdade, impedir que erros fatais se repitam. Se a educadora enxerga "oportunismo" no grito de uma mãe, que foi noticiado pela imprensa, mas não vê oportunismo na reeleição de um gestor cuja administração matou um aluno, então ela além de falhar como professora, falhou também como cidadã.
A mãe de Flávio Ramon não precisa da anuência de ninguém, nem desse jornalista nem da educadora (sic) para manter viva a memória do filho. E o jornalismo não pede licença, ainda mais para professores desse quilate de conhecimento, para amplificar vozes que o poder insiste em silenciar. Se a professora acha "triste" que um portal noticie a luta de uma mãe por justiça, que olhe para as salas de aula de Itanhém e pense se há ainda escolas com fios de energia expostos ou algo semelhante que venha comprometer a vida de alunos e professores. Outros Flávios Ramon podem estar em risco nas salas de aulas, em ônibus que transportam alunos enquanto a senhora, professora, tristemente, defende o apagamento da história.
Enquanto houver mães como Irislene, a memória de Flávio jamais será apagada. E enquanto houver professores que confundem jornalismo com provocação, a aprendizagem e a criticidade dos alunos estarão comprometidas.