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Sábado, 06 de Dezembro 2025

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O Estado não pode se curvar a facções que aterrorizam a população, mas a solução para a paz não está no confronto

No dia seguinte ao confronto, as forças de segurança não ocupam o território de forma efetiva e permanente. E, aí, os soldados do tráfico que morreram são substituídos imediatamente e tudo recomeça para o sofrimento da população.

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O Estado não pode se curvar a facções que aterrorizam a população, mas a solução para a paz não está no confronto
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Por Edelvânio Pinheiro*

Antes de tudo, preciso registrar que todos os policiais — militares ou não —, especialmente aqueles que empunharam o fuzil para enfrentar bandidos do tráfico no cumprimento de sua missão nessa guerra, são, inquestionavelmente, heróis.

A declaração do governador Cláudio Castro, que classificou a megaoperação no Complexo da Penha e no Alemão, no Rio de Janeiro, como um "sucesso" é a negação oficial da realidade vivida por milhares de cidadãos. Ao reduzir o conflito a uma equação em que de um lado estão os heróis, quatro dos quais lamentavelmente mortos, e do outro, "117 bandidos armados", segundo Castro, o Estado sinaliza que toda vida perdida no "lado inimigo" é um troféu. Mesmo que se comprove que todos os mortos eram bandidos com fuzis na mão, essa lógica de guerra ignora a população que vive no meio do fogo cruzado.

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Quando um Estado mobiliza 2.500 agentes, apreende mais de 100 armas de fogo pesadas e cumpre 180 mandados de busca e apreensão, além de 100 de prisão, resultando em 121 mortos, a narrativa não pode ser reduzida a um simples placar de “nós contra eles”, como bem observa o colega Josias de Sousa em um de seus comentários. Ao assumir que todos os mortos civis eram "bandidos armados", o Estado apaga as possíveis vítimas colaterais, que são os moradores atingidos por uma bala perdida, geralmente de armas de criminosos, dentro de casa, os trabalhadores confundidos com bandidos, a criança que se escondeu por horas debaixo da cama. Para essas pessoas, a operação não representa segurança, mas sim o cerco: ruas bloqueadas, tiroteios intermináveis, escolas fechadas e o medo constante.

Essa abordagem quebra o contrato social. Quando o poder público trata os moradores como parte do problema ou aceita seu sofrimento como "dano colateral", a legitimidade da força pública se esvai. A sensação que fica é de que o Estado é mais um ator em um campo de batalha, e não o garantidor de direitos.

No dia seguinte ao confronto, as forças de segurança não ocupam o território de forma efetiva e permanente. E, aí, os soldados do tráfico que morreram são substituídos imediatamente e tudo recomeça para o sofrimento da população. Os comandantes desses soldados geralmente conseguem fugir ou já estão em presídios, de onde comandam sua tropa do mal.

A morte de criminosos armados pode dar uma ilusão passageira de vitória, mas é apenas um ciclo temporário. A organização criminosa se regenera rapidamente, preenchendo o vácuo de poder com novos recrutas. O verdadeiro resultado depois de qualquer ação de confronto não é a paz, mas a perpetuação de um ciclo de violência. O sofrimento dos moradores e a morte de policiais são os únicos elementos constantes nessa equação. E quando a violência retorna, vem mais forte e revestida de mais ódio, de ambos os lados.

O título deste artigo, escrito na madrugada desta sexta-feira (31), é a síntese perfeita do problema. A paz verdadeira exige justiça, direitos e oportunidades. Quando o Estado age apenas como um executor, e não como um provedor de cidadania, a paz que se obtém é na verdade um silêncio tomado pelo medo e pela desconfiança.

Idubitavelmente o crime armado precisa ser enfrentado. E enfrentado com força. O Estado não pode se curvar a facções que aterrorizam a população. No entanto, a resposta não pode ser uma política de "matar até sobrar ninguém", até mesmo porque em menos de 24 horas um novo exército de bandidos é convocado e colocado no lugar daquele que morreu no confronto. Então, o governador dizer que uma operação com um número elevado de mortos foi um "sucesso" é validar a vingança institucional disfarçada de política pública.

Essa megaoperação, no meu humilde entendimento, jamais deve ser comemorada. Ela deve servir como um alerta de que enquanto a segurança pública não for compreendida como um projeto de nação, baseado em educação, oportunidades, policiamento comunitário e inteligência que previne, estaremos condenados a repetir esse ciclo mais outras vezes.

A morte de policiais nesses confrontos é uma tragédia que merece todo o nosso luto e respeito. E o medo e risco que esses confrontos representam nessas comunidades é a certeza de que amanhã haverá mais jovens sem futuro, mais famílias dilaceradas e mais comunidades presas e dominadas pelo tráfico.

 

*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.

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