O tetra do Flamengo chegou explodindo céu afora, iluminando a noite do dia 29 de novembro como se o mundo resolvesse acender uma fogueira de alegria. Aqui no bairro, então, parecia réveillon antecipado: fogos estalando, bandeiras tremulando, vizinhos gritando em coro, e uma avalanche rubro-negra no centro da cidade comemorando o título como manda a tradição — com barulho, exagero e emoção.
Mas, para o pequeno Eben, recém-completados 1 ano e quatro meses no dia 23, aquela sinfonia de pólvora foi uma revelação. E que revelação! Os primeiros fogos da vida dele não vieram devagarinho, não. Chegaram como trombetas anunciando o fim dos tempos.
Ele levou um susto que quase dava para escutar no silêncio entre um rojão e outro. Chorou forte, assustado com um mundo que parecia, de repente, barulhento demais.
Mas ali estávamos nós, eu, a mãe e o irmão Tomás, já acostumados aos exageros humanos, acolhendo nosso caçulinha como quem protege um passarinho no meio de uma tempestade. Abraço, colo, carinho, a trindade sagrada capaz de desarmar qualquer medo de criança. Pouco a pouco, o mundo foi voltando ao volume normal dentro do coraçãozinho dele.
E quando a calma retomou seu lugar, fiz o que qualquer pai jornalista, rubro-negro e metido à pedagogo da vida faria; levei Eben para o centro da cidade. Afinal, se o mundo é barulhento, melhor ensinar devagar que ele também precisa se ajustar a esse ritmo.
E lá estavam as ruas lotadas, o mar de camisas rubro-negras, a carreata, a algazarra e aquele tipo raro de alegria coletiva que só o futebol sabe fabricar. E Eben, agora vestindo sua pequena camisa do Flamengo — que nele parecia quase um manto sagrado em miniatura — começou a olhar tudo com um brilho que nenhum rojão conseguiria apagar.
E não é que o sacaninha gostou?
Daí a pouco, estava gritando, aplaudindo, batendo palminha e entrando na bagunça como se tivesse descoberto sua verdadeira torcida.
No fim das contas, aquele 29 de novembro além do dia em que o Flamengo se tornou tetra da Libertadores foi também o dia em que meu caçula conheceu os fogos e, mais do que isso, o dia em que aprendeu que o barulho do mundo pode assustar, mas também acolher; que pode amedrontar, mas também encantar.
E, convenhamos… conhecer o mundo barulhento dos fogos com mais um título do Flamengo tem seu charme.
A mãe dele, atleticana fiel, certamente não gostou nada desse barulho.
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