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O anjo de Neiva estava em Caetité, no alto sertão da Bahia

Crônica de Edelvânio Pinheiro

O anjo de Neiva estava em Caetité, no alto sertão da Bahia
Foto: Ilustrativa
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Logo pela manhã, depois de mais uma noite maldormida, Neiva seca as lágrimas e sai em busca de ajuda pelas ruas do bucólico distrito de Batinga, onde mora com o marido, três filhos e cuida da mãe idosa, que é usuária de cadeira de rodas.

Ela tem cálculos renais, descobertos nos primeiros exames feitos há cerca de quatro anos e precisa, urgentemente, de intervenção cirúrgica nos dois órgãos. Pedras nos rins aumentam a pressão dentro do sistema urinário e geram uma série de reflexos no sistema nervoso, ocasionando quadros de cólicas insuportáveis, que são consideradas uma das piores dores do mundo. Pior que essa dor só a neuralgia do trigêmeo, um tipo de síndrome dolorosa caracterizada por dor no rosto, idêntico a um choque elétrico ou dor com fortes pontadas.

Sem recursos e vítima de profundo sofrimento e pesadelo, ela encontra pelo caminho muitas pessoas dispostas a ajudá-la com palavras de conforto e orações. Salvo algumas raras exceções, políticos propõem permutas horrendas e impiedosas, condicionando a cirurgia dela em troca de voto ou levando Neiva a hospitais onde ela jamais seria operada, em troca de uma foto eleitoreira. Mas infelizmente as promessas iam sumindo diante dos olhos de Neiva, feito fumaça em tarde de ventania.

Os dias nascem e morrem naturalmente e Neiva, sentada mais uma vez numa cadeira qualquer da Secretaria da Saúde é humilhada e depois bloqueada no WhatsApp. Os pedidos de socorro certamente estavam causando ruídos aos tímpanos da secretária.

Não há muito que fazer! Sem recursos, Neiva volta novamente para casa. Pela janela do ônibus, ela vê a poeira da estrada que se desfaz por entre os raios solares e, em seu pensamento, conversa com Deus e pede a Ele que envie um socorro quanto antes.

Na estrada, o verde das árvores contrasta com o dourado do pôr do sol. É possível contemplar um ipê amarelo, que some na proporção que o ônibus vai seguindo. E naquela imagem bonita ela insiste na oração com pedidos de apelo a Quem foi capaz de criar aquele horizonte tão bonito e perfeito: “Não me bloqueie, Deus de José do Egito, de Abraão e Salomão; não me deixe de fora dos Teus planos...”

Em um novo dia, as dores insistem devorá-la novamente. O marido saiu a pé nas primeiras horas da manhã para um serviço braçal, numa fazendo bem próxima. Os filhos estão lá fora, no quintal, e Neiva entra no banheiro, onde chora e sangra, sangra literalmente. 

Ela se desespera e chega a uma conclusão que não cabe a nenhum de nós julgar. O sofrimento é tão enfadonho e entediante que ela pensa em tirar a própria vida. Por alguns instantes, as fortes dores a fazem se esquecer dos filhos, do marido e do pôr do sol bonito visto na estrada quando pediu socorro a Deus.

Vamos agora para a cidade de Caetité, no alto sertão baiano. Era lá que estava o anjo de Neiva e não foi tão difícil encontrá-lo assim, com a ajuda de Dr. Osmilto Brandão, claro.

Na manhã do dia 2 de agosto Neiva entra para a sala de cirurgia e sai de lá horas depois livre dos cálculos renais, que foram retirados do rim esquerdo. Ela não sabia que o dono do pôr do sol e do ipê amarelo tinha ouvido sua oração silenciosa e recrutou dois de seus anjos da mais alta ordem na hierarquia celestial.

O médico Osmilto Brandão – um ser humano que dispensa as mais ricas palavras – usou de sua fiel amizade que tem com o também médico Roberto Prates e pediu para que ele acabasse com o sofrimento daquela moradora de Batinga.

Arcanjo iluminado, Dr. Roberto trabalha e tem negócios na capital baiana. Apesar de sua batalha diária, faz questão de encontrar tempo para exterminar dores e salvar vidas sem pedir nada em troca.

Esse profissional é um dos melhores cirurgiões do país na área de urologia. Natural de Ibiassucê, uma cidadezinha próxima a Caetité, Dr. Roberto Prates é formado há 35 anos pela Escola Baiana de Medicina, em Salvador, onde trabalha desde que se formou. Ele é um dos fundadores do serviço de urologia do Hospital Irmã Dulce e um dos donos da Uroclínica da Bahia. Durante 25 anos foi cirurgião nos hospitais Irmã Dulce, Português, Aliança, São Rafael, Martagão Gesteira e Pediátrico, todos de Salvador.

Nos contatos que este humilde escrevedor de histórias manteve com o Dr. Roberto Prates, em razão da cirurgia de Neiva, é surpreendente a bondade, a humanidade e a doação desse médico. Em todos os momentos ele se mostrou solidário no mais amplo sentido da palavra.

Acreditem! Em um desses diálogos Dr. Roberto se prontificou a ir, de onde estava, à cidade de Caetité providenciar estadia para a acompanhante de Neiva, que não podia ficar na unidade de saúde onde estava internada. Ao ler no WhatsApp a mensagem, confesso que deixei escapar um sorriso frente a tanta dedicação: “Não estou em Caetité, mas vou providenciar uma pousada, Edelvânio, na rua não deixo não!”.

Após poupá-lo desse incômodo, graças à ajuda de amigos solidários, diante da bondade do Dr. Roberto Prates, me lembrei do verso da canção de Almir Sater e Renato Teixeira porque, realmente, “é preciso amor pra poder pulsar.”

Neiva precisa ainda fazer a cirurgia no outro rim, que também tem cálculos, para ficar totalmente curada. Não tenho dúvidas de que as hábeis mãos do Dr. Roberto Prates estarão à disposição novamente, para que a suave Neiva continue observando o pôr do sol e sorrindo para o ipê amarelo, que em um dia muito triste de sua vida ela contemplou na estrada de Batinga.

 

*[Edelvânio Pinheiro é escritor, jornalista e radialista. Tem licenciatura plena em Letras Vernáculas e pós-graduação lato sensu em Ciências Políticas]

FONTE/CRÉDITOS: Crônica de Edelvânio Pinheiro*
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