Antes de qualquer coisa, é preciso deixar claro aos amigos que acompanham o meu trabalho, que não há problema algum em cristãos se reunirem publicamente para expressar sua fé. Pelo contrário. A fé vivida em comunidade, com alegria e testemunho, é algo legítimo e, quando sincero, é profundamente bonito.
Mas é justamente por respeitar o Evangelho que se torna impossível não fazer uma pergunta incômoda. O que vimos em Itanhém neste sábado (28) foi, de fato, uma Marcha para Jesus?
A caminhada pela Avenida Maria Moreira Lisboa, a presença dos fiéis, os louvores, as lindas poesias cantadas por Ânderson Freire, tudo isso carrega um valor simbólico importante. No entanto, o que aconteceu no palco na “Praça da Rodoviária” levanta dúvidas sérias. Um evento que deveria apontar exclusivamente para Cristo acabou se transformando em um espaço dividido com interesses políticos, discursos institucionais e exposição de figuras públicas.
E aqui não se trata de mistura inevitável e gratuita. A Bíblia é direta quando diz:
“Ai de vós… que limpais o exterior do copo e do prato, mas por dentro estais cheios de rapina e intemperança.” (Mateus 23:25)
A crítica de Jesus sempre foi contra a aparência de religiosidade usada como fachada. E é impossível ignorar quando um evento religioso se enche de autoridades em busca de fala, se associa visualmente a símbolos de campanha e acontece justamente em um ano de eleições.
Pode parecer coincidência para alguns, mas para quem tem o mínimo de percepção política, é estratégia. E uma boa estratégia, por sinal, porque se apropria da fé, em um dos momentos mais sensíveis do ser humano. É no ambiente de devoção, onde as pessoas estão mais abertas, emocionadas e confiantes, que a mensagem ganha força e encontra menos resistência. Mas o Evangelho não é ferramenta de promoção pessoal nem deve servir a qualquer projeto que não seja o reconhecimento de Jesus Cristo. Transformar um momento de adoração em espaço de construção de imagem pública pode até ser eficaz do ponto de vista político, mas está longe daquilo que Jesus ensinou e viveu.
Mais grave ainda é o contraste entre o palco e a realidade. Enquanto se investe dinheiro da prefeitura em estrutura e visibilidade, há relatos concretos de pessoas enfrentando dificuldades básicas na cidade de Itanhém, inclusive na área da saúde, como o caso recente de uma moradora com câncer que, se não fosse o apoio de um vereador, depois de fortes apelos nas redes sociais, ela não conseguiria ir a Teixeira de Freitas fazer um exame. E sobre isso o Evangelho também é claro:
“Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber…” (Mateus 25:35)
Qual dessas duas coisas se aproxima mais de Jesus: a marcha ou a prática?
A fé cristã não se mede pelo tamanho do palco, nem pela quantidade de autoridades presentes, nem pelo artista convidado. Ela se revela no cuidado com quem sofre, na justiça, na verdade e na coerência.
Quando o nome de Jesus passa a dividir espaço com projetos de poder, algo se perde. Porque Cristo nunca foi instrumento; Ele sempre foi o centro de tudo.
Para encerrar, deixo aqui uma reflexão silenciosa, pois é perceptível notar que há quem subiu no palco na Praça da Rodoviária para, verdadeiramente, testemunhar a fé, mas há também quem enxergue no mesmo palco um capital político e a oportunidade de uma licitação milionária.
Fonte/Créditos: Por Edelvânio Pinheiro
Créditos (Imagem de capa): Tudo amarelinho: imagem da campanha do então candidato Bentivi, em 2024 e, neste sábado (28), na Marcha para Jesus, em Itanhém.
Comentários: