Andando pela orla de Porto Seguro, um rapaz gentil e cheio de entusiasmo me ofereceu um passeio, que confesso haver recusado três ou quatro vezes. Mas ele foi enfático e, com sua habilidade de vendedor, me convenceu a navegar por 50 minutos mar adentro para conhecer o Parque Marinho de Recife de Fora.
Receoso por saber que não ficaria com os pés em terra firme, eu e outros visitantes da cidade onde nasceu o Brasil embarcamos do Píer Municipal. A escuna Flor de Lis e seu experiente comandante, o Capitão Zito, nos proporcionaram uma viagem com paisagens deslumbrantes, nunca antes vistas por mim.
Todos que trabalhavam naquela embarcação deixaram a viagem mais divertida e leve para aqueles que não têm tanta intimidade com o mar. Do marinheiro que conduz a escuna ao instrutor a bordo, Zau, que torna a viagem mais divertida, dos auxiliares que ajudam a atracar o barco e levar os turistas de bote, aos fotógrafos e cinegrafistas Marcos, Matheus, Edilson e Batata que eternizam momentos com suas lentes mágicas e impermeáveis.
A luz do sol em alto-mar e o azul das águas marinhas dissipavam qualquer insegurança. Eis que, de repente, surge o Recife de Fora com suas piscinas naturais. Um destino considerado o terceiro maior centro de biodiversidade da fauna marinha brasileira. Ali estão 16 das 18 espécies de corais existentes em todo o mundo.
A água límpida do recife me permitiu contemplar peixes de cores vívidas que só poderiam ter sido pintadas pelas mãos suprema do Criador de tudo o que há no universo. Peixes, tartarugas marinhas, moluscos, ouriços e outros animais exóticos são algumas das espécies nativas daquele local.
Um jovem rapaz chamou a atenção de todos durante o passeio quando falou da importância do recife e das espécies dos animaizinhos que ali existem. Muito desenvolto, ele deu uma verdadeira aula de biologia marinha, explicando o comportamento dos animais que habitam aquela região e, de forma bem didática, fez apelo para que todos os visitantes tivessem consciência ambiental e respeitassem a natureza.
Múndi é o nome desse voluntário que tem o coração do tamanho do mar. Todos os dias em que a maré possibilita o passeio, lá está ele, sem ganhar um centavo pelas aulas ministradas nas piscinas do recife. As instruções são recheadas com uma boa dose de humor. Ao colocar no ouvido uma concha que a natureza demora 50 anos para produzir, criticando aqueles que compram artesanatos feitos com produtos marinhos, Múndi conseguiu arrancar muitas gargalhadas, mas fez todos ali darem um mergulho particular na consciência.
Depois dos preciosos ensinamentos, mergulhei nas águas claras da piscina natural que havia se formado quando a água baixou. Cardumes passavam tranquilos e alguns peixes de intenso azul se destacavam entre os demais, antes de sumir entre os corais. A intensidade do sal deixa o mergulho fácil e muito calmo.
No tempo indicado pelos profissionais da embarcação era preciso voltar. O mar não podia esperar, porque logo a poesia e a beleza do recife estariam submersas. Pouco tempo depois, já de volta ao barco para retornar ao píer, olhei para o recife com um gesto de despedida e ele já estava nos braços do Atlântico. Sua beleza divina submergia quase por completo.
Então, o Recife de Fora ficava para trás para no outro dia se permitir a outros visitantes. Mais bonito que isso só o gesto de Múndi, que acompanha a natureza daquele pequeno espaço do oceano para ser seu porta-voz e um de seus guardiões.

Fonte/Créditos: Crônica de Edelvânio Pinheiro
Créditos (Imagem de capa): Fotos: Marcos Porto e Edelvânio Pinheiro