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Segunda-feira, 15 de Junho 2026
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Notícias / POLÍTICA

Mein Kampf, Bentivi e a “grande mentira” como técnica de manipulação na política de Itanhém

Ao olhar para a história de Itanhém, o discurso de Bentivi mostra um paradoxo muito claro.

Mein Kampf, Bentivi e a “grande mentira” como técnica de manipulação na política de Itanhém
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Edelvânio Pinheiro*

Estou organizando minha biblioteca na nova casa, onde já moro há alguns meses. É trabalhoso limpar todos os livros, manuseá-los para que as páginas possam respirar e deixá-los ao sol por um bom tempo. O cuidado é ainda maior com os livros mais antigos, que geralmente têm páginas amareladas. Durante esse processo, separei três livros para abordar duas situações distintas. Dois deles são os volumes de "Mein Kampf", no seu título original, em alemão, de Adolf Hitler, e o outro é "O destino do jornal", de Lourival Sant’Anna, comentarista internacional da CNN, sobre o qual posteriormente pretendo escrever sobre os anos que fui correspondente do jornal A Tarde, de Salvador. A escolha desses livros não foi aleatória. Ao manuseá-los, percebi como a história pode ser um espelho para o presente, e algumas estratégias descritas em obras como "Minha Luta" continuam sendo aplicadas, ainda que sob novas roupagens.

É impressionante como certas estratégias políticas atravessam os séculos e continuam sendo utilizadas para manipular a opinião pública. A frase "quando maior a mentira, maior é a chance de ela ser acreditada", presente na orelha da Parte I do livro de Hitler, sintetiza um dos pilares da propaganda nazista, que é a técnica da "grande mentira". Essa estratégia, explorada também por Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemnha nazista, consistia em repetir uma falsidade tantas vezes que ela se tornava verdade aos ouvidos da população. E não é exagero dizer que Bentivi (PSB), prefeito de Itanhém, tem recorrido a elementos semelhantes para justificar sua gestão e consolidar uma narrativa conveniente.

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No livro de Hitler, destacam-se cinco elementos principais dessa técnica, dos quais Bentivi aplicou, ressalvados os exageros, pelo menos quatro deles.

Desde o início do seu mandato, Bentivi vem reiterando insistentemente que a culpa dos problemas do município recai sobre a gestão anterior de Mildson Medeiros, do Avante. A cada discurso, entrevista ou publicação oficial, a mesma ideia de que ele teria herdado um caos administrativo e financeiro, é martelada. A primeira-dama Lidiane Guimarães, que também é secretária da Assistência Social, e muitos de seus aliados políticos parecem ter sido instruídos a fazer a mesma coisa; às vezes, faz até nojo ouvi-los. Essa repetição contínua cria uma percepção coletiva de que sua gestão é apenas uma vítima das circunstâncias.

Outra situação que se assemelha às técnicas usadas por Hitler é que críticos e adversários de Bentivi são constantemente taxados de irresponsáveis ou de inimigos do desenvolvimento do município de Itanhém. Qualquer tentativa de contestar a narrativa oficial é ridicularizada ou desmoralizada nas redes sociais. Recentemente, o vereador Gelson Picoli (Avante) gravou um vídeo denunciando o descaso com a saúde no distrito de Ibirajá, e um idiota qualquer, desses aliados do prefeito, facilmente encontrados em grupos de WhatsApp, questionou o motivo da matéria feita por mim, que simplesmente narrava a cobrança do parlamentar. Isso é uma atitude clara de quem é trouxa, pois não perde a oportunidade de mostrar que é puxa-saco de carteirinha e um miserável dependente de um emprego temporário da prefeitura para sobreviver. E, claro, a estratégia é criar um ambiente de intimidação para silenciar boa parte da oposição.

Bom de lábia, Bentivi discursa sempre com extrema segurança, como se sua versão dos fatos fosse a única verdade absoluta. Usa a estrutura da prefeitura para reforçar sua narrativa, confiando na posição que ocupa para conferir legitimidade às suas palavras, apoiando-se em expressões como “estamos à disposição para qualquer esclarecimento” e “todo o nosso trabalho é feito com a mais absoluta transparência”. Assim, cria a ilusão de que suas afirmações são embasadas e inquestionáveis. A população viu isso no dia em que ele foi à reunião da Câmara Municipal e vê isso sempre que ele faz uso das redes sociais.

Outra técnica, talvez a mais importante usado por Hitler, é a de que a situação do município é reduzida a uma narrativa simplista. Todos os problemas são culpa do passado, e Bentivi seria o único a tentar resolver. Essa redução da complexidade dos fatos facilita a adesão popular à sua versão dos acontecimentos, pois é mais cômodo acreditar em uma explicação simples do que buscar entender as diferentes camadas dos acontecimentos, detalhes ou aspectos sutis que compõem a realidade.

Ao olhar para a história de Itanhém, o discurso de Bentivi mostra um paradoxo muito claro. Em 2017, quando deixou a prefeitura para Zulma Pinheiro (MDB), ele entregou um município com dívidas no INSS, obras inacabadas e uma frota de veículos completamente destruída. No entanto, agora em 2024, ao reassumir o cargo após a gestão de Mildson Medeiros (Avante), Bentivi alega ter recebido o município em estado de caos. A diferença é que a memória da população não é tão curta quanto ele e seus aliados imaginam.

O uso dessas técnicas de manipulação da opinião pública não é exclusivo de regimes totalitários. Políticos modernos frequentemente se aproveitam dos mesmos princípios para distorcer fatos e consolidar sua permanência no poder. No caso de Itanhém, Bentivi pode até se beneficiar temporariamente dessa estratégia, mas a verdade, por mais que tentem esconder, sempre dá um jeito de aparecer. E, quando isso acontecer, o discurso cairá por terra, revelando que, por trás das palavras eloquentes — ou, se você, leitor, preferir, por trás da lábia de Bentivi —, há apenas mais um político tentando perpetuar a própria narrativa às custas da realidade.

 

*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA) e licenciado em Letras Vernáculas pela UNEB. É também pós-graduado em Ciências Políticas, radialista e autor de sete obras, incluindo crônicas, livro-reportagem e literatura infantojuvenil.

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