Eu tive a oportunidade de trabalhar na assessoria de comunicação da Prefeitura de Itanhém, com o emedebista Manoel Batista dos Santos, o Neco Batista, um dos prefeitos mais linha dura que o município elegeu por dois mandatos. Os dois maiores líderes políticos do município, como se sabe, são, nesta ordem, Sady Teixeira Lisboa e Gedeon Botelho Ferreira. Neco ocupa, na opinião dos mais sensatos, o 5º lugar. Talvez fosse melhor classificado na história se não fosse um exímio praticante do nepotismo que enojou a história política água-pretense.
De 2001 a 2004, além de Neco, dei assessoria ao filho dele, Newton Pinheiro, na presidente da Câmara Municipal. Para se manter à frente da Mesa Diretora do Legislativo itanheense por quatro anos, Newton mudou o estatuto da Casa do Povo, permitindo se reeleger. A manobra, claro, custou caro para os cofres e para a moralidade política do município na época.
Um dia Neco me chamou no escritório de sua casa, na Fazenda Suíça, como sempre fazia quando queria falar pessoalmente com alguém. Luélito foi quem me pegou em casa em um Fiat Uno, o mesmo carro que fez propaganda volante nas eleições que elegeram o prefeito. Não me recordo qual foi o assunto da conversa – que geralmente era algo ligado à divulgação de suas ações à frente do município –, mas de um livro sobre a mesa jamais vou me esquecer.
Neco pegou o livro com a mão esquerda e, com a direita, pressionando todo o conteúdo do livro, passou as páginas, soltando uma por uma, cuidadosamente controladas pelo dedo polegar. Enquanto a obra era folheada, ele me aconselhou conhecer o fantástico mundo de “O príncipe”, de Nicolau Maquiavel.
Nessa ocasião eu já havia concluído Letras Vernáculas na Universidade do Estado da Bahia, no campus X, na cidade de Teixeira de Freitas, e já havia lido “O príncipe” por indicação do meu professor de Latim, Rivaldo Baleeiro, que também me indicou “A arte da guerra”, de Sun Tzu.
Eu sempre me mantive de pé quando chegava ao escritório do prefeito. Achava desrespeitoso me sentar sem que o dono daquele espaço houvesse me convidado, ainda mais por se tratar de uma residência e não de um lugar público. Achava feia a atitude da grande maioria, que já entrava e ia arrastando a cadeira.
Neco então me convidou a me sentar e resumiu dizendo que “O príncipe” era – em suas palavras – “um livro muito bom”.
A principal obra de Nicolau Maquiavel foi publicada no século XVI, cinco anos após a sua morte. Nela ele ensina os príncipes como chegar ao poder e, estando lá, não perdê-lo. A obra acabou se tornando uma teoria do Estado moderno, em razão das recomendações aos governantes sobre a melhor maneira de administrar. Engana-se quem pensa que Neco Batista era um homem ultrapassado. Na verdade ele sempre esteve à frente do seu tempo, tanto é que já entendia que aquela seria a obra perfeita para quem desejava aprender como, de fato, a imagem de um político deveria ser construída.
A partir daí comecei a analisar as atitudes administrativas de Neco fazendo relação com os ensinamentos de Nicolau Maquiavel. E percebi que Neco Batista sempre se mostrava um político firme em suas decisões e fui notando que a sua autoridade era facilmente vista até nas relações familiares, principalmente com os filhos e, claro, esse comportamento de sua personalidade, somado ao que ele havia aprendido com Maquiavel, não poderia ser diferente quando ele esteve sentado na cadeira do Poder Executivo de Itanhém.
Alguém nesta altura poderia questionar que Neco, no pleito seguinte, perdeu a reeleição para Gedeon Botelho. A explicação também pode ser encontrada nos textos de Maquiavel em relação à falta de prudência do governante, quando Neco permitiu o envolvimento direto de seus filhos em sua gestão. A filha Zulma Pinheiro – que mais tarde veio a ser prefeita – foi vice-prefeita e secretária na gestão do pai. Newton Pinheiro, como já dito, colocou o Poder Legislativo debaixo do braço e Álvaro Pinheiro, que havia tido uma passagem meteórica pela Assembleia Legislativa da Bahia, foi secretário da Educação, com poder para fazer chover a hora que desejasse.
Maquiavel diz que o virtuoso é prudente e sabe o momento oportuno de agir e o momento de não fazer nada, de acordo com a ocasião. Assim, para o filósofo italiano, o político inteligente é o que se antecipa e não deixa margem para as circunstâncias. Já o político que vive despreparado em função da “fortuna” e do acaso apenas atrai o fracasso. Pode ter sido esse o caso de Neco Batista.
Coincidentemente, no dia 25 de agosto de 2020, antes das eleições municipais, em opinião publicada pelo portal de notícias Água Preta News, sugeri ao atual prefeito de Itanhém, Mildson Medeiros, do Partido Social Democrático, a leitura ou, caso já houvesse lido, a releitura desses dois livros, “O príncipe” e “A arte da guerra”. Já passado quase um ano e meio, pelo andar da carruagem, ele não fez nem uma coisa nem outra.
Fonte/Créditos: Edelvânio Pinheiro
Créditos (Imagem de capa): Filósofo Maquiavel, políticos Neco Batista e Mildson Medeiros e o jornalista Edelvânio Pinheiro.