A queda de Nicolás Maduro marca mais do que o fim de um ciclo político na Venezuela. Ela expõe, de forma quase didática, o fracasso de um governante que ignorou princípios elementares da arte de governar formulados há mais de cinco séculos por Nicolau Maquiavel. O Príncipe, longe de ser um manual de tirania, é uma reflexão realista sobre a conservação do poder; e foi justamente aí que Maduro tropeçou.
Ao assumir o comando do país após a morte de Hugo Chávez, além da presidência, Maduro herdou um capital simbólico sustentado pelo carisma do antecessor. Maquiavel, porém, advertia que o poder herdado exige ainda mais prudência do que o conquistado. A virtù, capacidade política, leitura do tempo histórico e habilidade de adaptação, não se transmite por sucessão. Maduro equivocadamente governou como se a lealdade popular fosse automática e permanente.
Um dos pilares do pensamento maquiaveliano é a relação entre o governante e o povo. O autor florentino afirma que é preferível ser temido a ser amado, mas faz uma ressalva essencial, alertando que o príncipe jamais deve ser odiado. O governo Maduro ultrapassou essa fronteira. A combinação de corrupção, crise econômica profunda, escassez de alimentos, colapso dos serviços públicos e repressão política dissolveu qualquer vínculo mínimo de confiança social. O medo, quando se transforma em ódio, deixa de ser instrumento de estabilidade e passa a ser combustível de ruptura.
Maquiavel também foi preciso ao tratar do uso da força. A violência, segundo ele, deve ser pontual, calculada e orientada à pacificação. Maduro, contrariando os ensinamentos de Maquiavel, optou pela repressão prolongada, reiterada e muitas vezes desordenada. Em vez de neutralizar adversários, produziu novos focos de resistência, internas e externas. A coerção contínua não fortaleceu o regime; apenas acelerou seu desgaste e isolamento.
Outro ponto central ignorado foi o das alianças. Maquiavel alertava que o príncipe que depende excessivamente de forças externas se torna vulnerável. Maduro construiu sua sustentação internacional a partir de alianças ideológicas e estratégicas limitadas, que se mostraram frágeis diante do agravamento da crise política e da pressão internacional. Apostou mais na retórica de solidariedade do que em garantias concretas de proteção e governabilidade.
Ainda devo citar neste artigo, a confusão entre controle e autoridade. Maduro concentrou poder, enfraqueceu instituições e submeteu o Estado a uma lógica de sobrevivência política. No entanto, como ensina Maquiavel, autoridade não nasce apenas do controle, mas da percepção de capacidade de governar. Ao perder eficiência administrativa e legitimidade social, o governo manteve-se formalmente de pé, mas politicamente esvaziado.
A trajetória de Maduro confirma a lição clássica de que o poder não se sustenta apenas pela força, nem pelo discurso, nem pela herança simbólica. Ele exige leitura do tempo, adaptação e sensibilidade política. Ignorar essas regras não torna um governante mais firme; apenas o aproxima de sua queda.
Fonte/Créditos: Por Edelvânio Pinheiro
Créditos (Imagem de capa): Ilustração produzida por inteligência artificial, a partir da combinação das imagens de Nicolás Maduro e uma representação clássica de Nicolau Maquiavel.
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