Em tempos em que celulares, tablets e televisões fazem parte da rotina de praticamente todas as famílias, cresce a preocupação sobre até que ponto a exposição precoce às telas pode influenciar — positiva ou negativamente — o desenvolvimento das crianças.
Pediatras e especialistas em desenvolvimento infantil têm insistido em afirmar que crianças com menos de dois anos não deveriam ter contato com telas. A razão é simples e científica. Nessa fase da vida, o cérebro humano vive um período de formação extremamente intenso, e o aprendizado acontece principalmente por meio da interação real com pessoas, objetos e o ambiente. Afinal, não é a tela que ensina; é a experiência.
Em casa, essa orientação foi levada a sério desde o nascimento do meu filho Eben, que hoje tem um ano e sete meses.
Ele não tem contato com televisão. O aparelho foi desligado da tomada no dia em que ele chegou do Hospital São Paulo, em Teixeira de Freitas, onde nasceu. Também nunca utilizou celular ou tablet como forma de entretenimento. Em vez disso, seu cotidiano é preenchido por brincadeiras simples, conversas, exploração da casa, observação das coisas e aquela curiosidade natural que toda criança demonstra quando o mundo real está disponível para ela. Ah, e carros, muitos carros. Costumo brincar que, de tanto gostar deles, talvez venha a ser um engenheiro mecânico, ou simplesmente um mecânico, no futuro.
Os resultados têm sido surpreendentes.
Desde um ano e quatro meses, Eben já reconhece todas as cores, inclusive algumas consideradas mais complexas para a idade.
Com um ano e cinco meses, iniciou espontaneamente o processo de desfraldamento, demonstrando um controle impressionante sobre suas necessidades fisiológicas. No dia a dia, praticamente não usa mais fraldas, apenas quando precisa sair de casa e, mesmo assim, faz uma verdadeira resistência à ideia.
No mês seguinte, surgiu outra demonstração de curiosidade.
Enquanto eu escrevia no computador, ele começou a observar atentamente o que aparecia na tela. Não houve estímulo forçado nem método de ensino. Foi apenas interesse natural de uma criança tentando entender o que o pai estava fazendo.
Algum tempo depois, uma vizinha emprestou um tabuleiro de alfabeto em MDF, daqueles de encaixe. Foi o suficiente para despertar algo ainda mais impressionante.
Com apenas um ano e seis meses, Eben passou a identificar todas as letras do alfabeto.
Veja no vídeo abaixo Eben reconhecendo as letras em forma de brincadeira com a mãe dele, com algumas desatenções naturais da idade:
O mais curioso é que nada disso foi feito com pressão ou método de ensino formal. Foi simplesmente o resultado da curiosidade infantil sendo estimulada pelo mundo real.
Em outro momento, quando o levei a um rio para fazer novamente contato com a natureza, principalmente brincar com areia e ouvir o canto dos pássaros, ele novamente identifica as letras que escrevo na areia com facilidade:
Talvez Eben tenha, de fato, um potencial cognitivo acima da média. Algumas percepções e observações que fazemos no dia a dia, além das instruções da professora Maria Batista, que tem 40 anos de educação e especialidades no desenvolvimento educacional infantil, sugerem isso. Mas, independentemente de qualquer hipótese sobre inteligência, uma coisa parece clara: o ambiente faz enorme diferença no desenvolvimento de uma criança.
Quando uma criança não passa horas diante de uma tela, algo muito importante acontece. Ela observa mais. Ela pergunta mais. E, mais importante ainda, explora mais. É exatamente nesse processo que o cérebro constrói conexões fundamentais para o desenvolvimento intelectual.
A ciência já demonstrou que o excesso de telas na primeira infância pode prejudicar aspectos importantes do desenvolvimento, como linguagem, atenção e interação social. Por outro lado, experiências concretas como brincar, conversar, manipular objetos, ouvir histórias estimulam áreas essenciais do cérebro. Em outras palavras, pode-se dizer que o aprendizado verdadeiro acontece na vida real. O Dr. Humphrey falou sobre isso quando fiz o teste do olhinho do meu filho com ele.
O período da primeira infância corresponde, de forma geral, do nascimento até os 6 anos de idade. Esse entendimento é adotado por organismos internacionais como o UNICEF e também pela legislação brasileira, especialmente pelo Marco Legal da Primeira Infância. Dentro desse intervalo, os especialistas costumam dividir a primeira infância de 0 a 2 anos, que é a fase do desenvolvimento cerebral mais acelerado, quando se formam grande parte das conexões neurais; 2 a 3 anos, período de grande expansão da linguagem e da autonomia e 3 a 6 anos, que é a fase de consolidação da comunicação, imaginação, socialização e habilidades cognitivas.
A importância dessa etapa é enorme porque até os 6 anos o cérebro humano pode formar mais de 1 milhão de conexões neurais por segundo, dependendo dos estímulos recebidos. Por isso, experiências como interação com os pais, brincadeiras, leitura, movimento e exploração do ambiente são consideradas fundamentais.
É justamente por esse motivo que muitos especialistas recomendam evitar telas nos primeiros dois anos de vida, priorizando estímulos do mundo real.
Lamentavelmente, vivemos em uma geração em que muitos bebês aprendem a deslizar o dedo na tela antes mesmo de aprender a falar. Talvez a grande lição seja a antes de procurar aplicativos “educativos”, vale oferecer algo muito mais poderoso para uma criança, a presença, conversa, curiosidade e tempo.
Se a experiência com Eben pode servir de exemplo para outras famílias, ela reforça algo que os especialistas vêm dizendo há anos. Manter crianças longe das telas nos primeiros anos de vida não é atraso, é investimento no desenvolvimento delas.
Porque, no fim das contas, a melhor tecnologia para estimular a inteligência de uma criança ainda continua sendo a mais antiga de todas, o contato humano e o mundo real.
Fonte/Créditos: Por Edelvânio Pinheiro