Parei esse final de semana para fazer uma relação dos chamados “líderes políticos” de Itanhém, aqueles que aparecem nas épocas de eleição com discursos inflamados e promessas de renovação. Cheguei a um número assustador de um pouco mais de duas dezenas. Entre os mais e os menos influentes, o que há em comum entre quase todos é o mesmo comportamento repetido há décadas. Eles apoiam candidatos, sobem em palanques ou participam de reuniões eleitorais, gravam vídeos entusiasmados nas redes sociais e, depois das eleições, somem, como se nunca tivessem existido. Neste primeiro momento, achei por bem não publicar a relação desses verdadeiros artistas políticos que existem por aqui.
São praticamente os mesmos rostos que surgem a cada quatro anos com o mesmo roteiro decorado, prometendo mudança, posando de renovadores e, quando o resultado das urnas não lhes favorece, desaparecem como fumaça. Quando vencem, tornam-se bajuladores de luxo; quando perdem, vestem a fantasia de vítimas do sistema. O problema é que esse teatro político já cansou o povo itanheense. Cansado de ilusões e de falsas esperanças, o povo começa a perceber que por trás dos discursos bonitos se escondem velhos vícios e o mesmo apetite pelo poder.
Além dos derrotados, juntei a esse grupo aqueles que ajudaram a eleger seus candidatos e, depois de perceberem que foram usados e descartados, não tiveram a hombridade de admitir o erro. Nenhum deles teve coragem de vir a público, com a mesma empolgação que demonstraram em campanha, para reconhecer que enganaram a população ou que contribuíram para a manutenção de um sistema que não serve ao povo, mas apenas a eles mesmos. Preferem o silêncio covarde à coragem da autocrítica. Fingem não ver o desastre político que ajudaram a construir e seguem suas vidas como se nada tivesse acontecido.
Muitos desses “líderes de ocasião” continuam circulando nos bastidores, esperando uma nova chance de se aproximar do poder. Mantêm as mesmas alianças, os mesmos discursos prontos e a mesma velha disposição de servir a quem estiver mandando. São especialistas em mudar de lado, mas incapazes de mudar de postura. Nunca pedem desculpas, nunca refletem sobre os prejuízos que causaram ao município. Talvez por vaidade, talvez por medo de perder o pouco prestígio que ainda acreditam ter, permanecem calados, cúmplices de um modelo político que empobrece Itanhém moralmente e impede qualquer renovação verdadeira.
Com o advento das redes sociais, imaginava-se que essa classe de “líderes” usaria o espaço digital para prestar contas, justificar seus equívocos e, quem sabe, pedir desculpas ao povo. Esperava-se diálogo, transparência e responsabilidade; respostas públicas às denúncias, explicações sobre decisões polêmicas e, quando necessário, o gesto restaurador de reconhecer erros. Porém, o silêncio dessa gente é ensurdecedor. Eles transformaram as redes em palanque virtual, úteis para gravar sorrisos, posar em fotos e difundir promessas vazias, mas não em instrumento de responsabilização. A covardia política continua sendo o traço mais marcante de quem se coloca na condição de representante. Na verdade, quando não estão bajulando os donos do poder, estão tramando a próxima eleição para se beneficiar dela. Permanecem mais preocupados com aparições e alianças do que com prestar contas à comunidade que dizem representar. E não é demais lembrar que, no ano que vem, tem eleições para deputado e aí surge uma nova e perigosa oportunidade para esses oportunistas reciclarem suas falas e reocupar espaços que deveriam ser de serviço público e não de espetáculo.
Nota-se, então, que esses falsos líderes não querem o bem de Itanhém. Querem cargos, vantagens, contratos e até holofotes. Querem sentir o gosto do poder, ainda que passageiro, mesmo que isso custe o atraso da cidade, de suas vilas, distritos e comunidades rurais e o sofrimento da população mais pobre. São figuras que fingem confundir liderança com oportunismo e política com negócio pessoal. Não se preocupam com o povo, mas com a própria imagem. Passam a vida em busca de cargos, de nomeações, de benefícios, e tratam o poder público como uma extensão de seus interesses particulares.
Esses falsos líderes são especialistas em discursos prontos e promessas recicladas. Aparecem nas campanhas com sorrisos ensaiados, espalhando tapinhas nas costas e promessas que nunca cumprem. Depois, somem, deixando o povo à própria sorte, até que o calendário eleitoral traga novamente a oportunidade de posar de “salvadores”. Enquanto isso, a cidade se arrasta, sem rumo, nas mãos de quem só pensa em tirar proveito da política. Itanhém não precisa de atores com microfone na mão, mas de cidadãos com compromisso com o município e sua gente.
Enquanto isso, quem verdadeiramente defende Itanhém em qualquer espaço, inclusive nas redes sociais — o cidadão simples, o professor, o servidor público, o trabalhador que paga seus impostos — segue sendo ignorado. São essas vozes anônimas que se levantam quando a cidade sofre com o descaso, que denunciam o abandono das escolas, das estradas e da saúde pública. São essas vozes de gente que não ganha nada por opinar, que não tem cargo, nem medo de perder favores, mas que fala movida pelo amor à terra onde nasceu. São eles que mantêm viva a esperança de uma Itanhém mais justa, mesmo quando são atacados, silenciados ou ridicularizados pelos bajuladores de plantão. A verdadeira força política do município está nesse povo que trabalha de sol a sol, alguns deles radicados em outros países; povo que acredita na mudança e que não se vende por um emprego, um contrato ou uma promessa vazia.
O município precisa, urgentemente, de líderes de verdade. Gente que fale com coragem, que tenha a decência de reconhecer erros e a grandeza de pedir perdão ao povo quando erra, quando sobe em palanque para defender verdadeiros ladrões do dinheiro público. Itanhém precisa de lideranças que não se calem diante da injustiça, que não se escondam atrás de cargos, que não troquem a consciência por um salário ou uma vantagem. Precisamos de homens e mulheres que entendam que servir ao povo não é privilégio, é dever; que política não é instrumento de enriquecimento, mas de transformação social.
Enquanto a política local continuar nas mãos desses aventureiros sedentos por poder, Itanhém continuará sendo governada por vaidades e não por ideias. Continuará refém dos acordos de bastidores, da venda de secretarias municipais, das promessas mentirosas e da velha prática de governar para amigos e familiares. A cidade não avança porque falta coragem, falta caráter, falta compromisso com a verdade. E até que surjam líderes que enxerguem o cargo público como missão e não como oportunidade de negócio, o destino de Itanhém permanecerá preso ao atraso e à desilusão de um povo cansado de ser enganado.
*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.
Comentários: