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Terça-feira, 16 de Dezembro 2025

GERAL

Flávio Ramon não morreu, ele foi morto pela negligência criminosa do poder público que trata pobres como números

Neste artigo você vai ver o São Bernardo que Bentivi recebeu de Mildson Medeiros e o São Bernardo que ele entregou a Zulma Pinheiro. E, claro, até onde ele foi culpado pela morte de Flávio Ramon.

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Por Água Preta News
Flávio Ramon não morreu, ele foi morto pela negligência criminosa do poder público que trata pobres como números
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*Por Edelvânio Pinheiro

O tempo pode suavizar a dor, mas nunca apaga quando o sofrimento nasce da negligência e da injustiça. Passados quase nove anos da morte trágica do estudante Flávio Ramon Costa Jardim, que, aos 15 anos, perdeu a vida eletrocutado dentro da Escola Municipal São Bernardo, em Itanhém, a ferida ainda pulsa viva no coração de sua mãe, Irislene Santos Costa. Mais do que isso, a dor se estende ao corpo social de uma cidade que parece incapaz de aprender com seus erros, ao recolocar no poder, em 2025, o mesmo homem que chefiava a prefeitura à época da tragédia, o prefeito Bentivi, do PSB.

Reeleito em meio a um cenário de descrença generalizada, Bentivi, como bem expressou Irislene em um desabafo nas redes sociais recentemente, “não deixou saudade”. Sua administração passada foi marcada pela desordem, pelo sucateamento da máquina pública e, acima de tudo, por um descaso profundo com os setores mais sensíveis à dignidade humana, como saúde e educação. A reeleição de Bentivi não é apenas um retrocesso político; é um tapa na cara de uma cidade que ainda chora a perda de Flávio Ramon e que, ao que parece, esqueceu o peso de sua história.

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Há dias venho buscando informações, revendo arquivos e confrontando dados para produzir este artigo, que tem como propósito relembrar a tragédia que tirou a vida de Flávio Ramon e analisar o contexto político e social que permitiu a volta de um gestor cuja trajetória é marcada por negligência e insensibilidade. Além disso, o texto busca incentivar uma reflexão sobre como uma cidade pode seguir em frente quando sua memória é apagada e sua justiça, silenciada.

A verdade, dita com todas as letras, é que Flávio Ramon Costa Jardim não morreu — ele foi morto. Morto pela negligência criminosa de um poder público que trata pobres como números, crianças em idade escolar como obstáculos e vidas como acidentes de percurso. A morte do estudante, em 27 de outubro de 2016, não foi uma fatalidade. Foi a consequência direta de uma gestão relapsa, que abandonou escolas, ignorou a precariedade da infraestrutura municipal e permitiu transformar espaços de aprendizado em armadilhas mortais.

A Escola Municipal São Bernardo, onde Flávio perdeu a vida, naquela ocasião era um retrato do descaso. Fios desencapados, caixas de energia abertas e gambiarras elétricas alimentando equipamentos de som para festas eram parte do cotidiano. Segundo relatos de Irislene, o fio que eletrocutou seu filho estava exposto porque seria usado dias depois em uma festa de aniversário do filho de um vereador. A vida dos alunos daquela escola sob a gestão de Bentivi, portanto, valia menos do que a conveniência de um evento privado. A essência da tragédia foi, indubitavelmente, a desumanidade administrativa que colocou interesses políticos acima da segurança dos alunos.

A negligência não era um incidente isolado. Outras escolas da rede municipal, durante a gestão de Bentivi, enfrentavam problemas semelhantes: telhados quebrados, infiltrações, falta de ventilação e, sobretudo, instalações elétricas precárias. A Escola São Bernardo, palco da tragédia, era apenas uma entre muitas unidades escolares abandonadas naquela ocasião. As festas realizadas em espaços escolares, autorizadas pela prefeitura ou pela própria escola, também expunham alunos e funcionários a riscos constantes, sem qualquer fiscalização rigorosa.

Flávio, um menino de 15 anos com boas notas e sonhos de visitar o pai nos Estados Unidos, foi vítima de um sistema que falhou em protegê-lo. Sua morte não foi um acidente imprevisível; foi uma tragédia anunciada, escrita nas instalações mal cuidadas do São Bernardo, nos fios de energia expostos e na omissão de um prefeito que nunca teve a educação e a segurança como prioridades.

O sofrimento de Irislene Santos Costa, de tão doloroso, ultrapassa os limites da linguagem; é indizível. É a dor de uma mãe que viu o filho sair para a escola e nunca mais voltar. Que recebeu um corpo no lugar de um abraço. Que enterrou sonhos junto com um caixão. Mas Irislene é mais do que uma mãe enlutada; ela é uma mulher de coragem, que enfrenta a máquina pública com uma força que vem da fé e da indignação. Em suas palavras, publicadas recentemente em um grupo de WhatsApp, ela lamentou, mais uma vez, a perda do filho, e apontou o dedo para os responsáveis.

“Meu filho morreu por negligência do gestor que estava no poder em Itanhém”, disse.

Seu desabafo é um grito que ecoa pela cidade. É um lembrete de que a dor de uma mãe não pode ser silenciada, mesmo diante de um sistema – e de pessoas indelicadas e insensíveis também - que tentam apagar a verdade. Irislene carrega laudos, provas e a certeza de que a morte de seu filho seria possível ser evitada. Ela não fala apenas como vítima e como cidadã consciente, que exige justiça e memória. Sua luta é um exemplo de resistência em um Brasil onde a negligência muitas vezes é varrida para debaixo do tapete.

A dor de Irislene, porém, não é apenas dela. É compartilhada pelos colegas de Flávio, que testemunharam a tragédia; pelos professores, que lidaram com o trauma; pelos amigos, que perderam um companheiro; e por uma cidade que, em 2016, foi às ruas pedindo justiça.

Aqui preciso abrir um parêntese para lembrar que, na época, escrevi uma crônica inspirada na ideia de que "é de batalha que se vive a vida", fazendo eco à canção de Raul Seixas. Naquele contexto, a crônica foi adotada como grito de resistência, chegou a ser reproduzida em carros de som por professores da APLB durante uma greve que denunciava os maus-tratos do então prefeito Bentivi contra a educação pública. Era uma época em que a indignação tinha voz, tinha corpo, ocupava as ruas e ecoava nos muros das escolas. Mas, diante da tragédia que vitimou o jovem Flávio Ramon, sou forçado a perguntar: onde estão essas vozes hoje? Onde estão os gritos que exigiam segurança nas escolas e punição aos responsáveis? O silêncio que se seguiu à tragédia soa como uma segunda violência — a violência do esquecimento. Quando a dor é calada e a memória é apagada, abre-se espaço para a repetição dos mesmos erros, para a impunidade travestida de normalidade. É preciso lembrar para resistir, é preciso nomear o que dói para que a dor não vire rotina.

A reeleição de Bentivi em 2025 é um reflexo de uma sociedade que, por desinformação, desinteresse ou falta de opções, escolheu esquecer. Sua gestão passada foi um desastre em todos os sentidos. Além do abandono das escolas, a saúde pública era um caos: postos sem medicamentos, médicos ausentes e filas intermináveis; cirurgias eram mais difíceis do que diamantes. A infraestrutura da cidade, incluindo estradas, pontes e ruas, estava em colapso, colocando ainda mais vidas em risco. Por sorte ou milagre, outras tragédias fatais não ocorreram com quedas de pontes nos primeiros meses da gestão seguinte de Zulma Pinheiro.

Bentivi reassumiu a prefeitura sem jamais reconhecer sua responsabilidade na morte de Flávio. Não houve pedido de desculpas convincentes, não houve compromisso público com mudanças estruturais, não houve demonstração de empatia. E, hoje, seu silêncio fala mais alto do que qualquer discurso. É o silêncio de quem trata a morte de um jovem como um inconveniente do passado, um número apagado dos registros municipais.

O que torna a situação ainda mais revoltante é que Bentivi recebeu, em 2025, uma rede escolar reformada pelo prefeito anterior, Mildson Medeiros, do Avante. A Escola São Bernardo, hoje, é um espaço praticamente reconstruído, com infraestrutura moderna e segura. Mas isso não apaga o passado. Não apaga o fato de que, sob a gestão de Bentivi, aquela mesma escola era uma armadilha mortal. Por ser sarcástica não gosto muito dessa figura de linguagem chamada ironia, mas, agora, ela é praticamente inevitável: o prefeito que abandonou a educação agora colhe os frutos do trabalho de outro prefeito, sem jamais prestar contas pelo que deixou de fazer.

A insensibilidade de Bentivi, além de uma falha pessoal, é um sintoma de um sistema político que premia a negligência. No Brasil, prefeitos como ele não são exceção, mas regra. A falta de punição para gestores irresponsáveis cria um ciclo vicioso, onde o descaso é normalizado e a dor das vítimas, ignorada. A reeleição de Bentivi é a prova de que, para muitos eleitores de Itanhém, a memória é curta e a indignação, passageira — talvez porque o sangue de Flávio Ramon nunca correu nas veias deles, e a tragédia que feriu uma família inteira jamais atravessou o portão das suas casas confortáveis.

Diante de qualquer falha da justiça humana, Irislene encontra na fé a possibilidade de apelar à justiça divina. Afinal, a certeza espiritual de que “a Justiça divina não dorme”, conforta. Para uma mãe que não viu ninguém ser punido pela morte irresponsável de seu filho, a fé torna-se além de um refúgio, uma promessa. É a esperança de que, mesmo quando os tribunais terrenos falham, o responsável pela morte de Flávio Ramon enfrentará o julgamento do Altíssimo — um julgamento que não se compra, não se adia e não se corrompe. Na ausência de respostas do mundo, é no silêncio da alma que ela encontra a convicção de que a verdadeira justiça, cedo ou tarde, será feita.

Essa dimensão espiritual não é apenas uma questão de crença pessoal; é um reflexo de uma sociedade que, muitas vezes, só encontra consolo na ideia de uma justiça maior. Quando a prefeitura silencia, quando a imprensa se acovarda, quando a justiça humana não dá resposta, resta a certeza de que há um tribunal que não falha. E é nesse tribunal que Irislene deposita sua esperança.

A tragédia de Flávio Ramon vai além de uma história de negligência administrativa; é também uma história de falha coletiva. E sua morte, que deveria ser um divisor de águas na história da cidade, virou “notícia velha”, relegada ao arquivo.

A sociedade, por sua vez, também falha ao permitir que a memória de Flávio seja apagada. A reeleição de Bentivi é um sinal de que a indignação de 2016 não se transformou em mudança duradoura. É um sinal de que, para muitos, a dor de Irislene é apenas a dor de uma mãe, e não a dor de uma cidade inteira.

A história de Flávio Ramon não pode ser reduzida a uma nota de rodapé na história de Itanhém. Ela precisa ser um alerta para que nenhum outro estudante pague com a vida pelo descaso de gestores públicos. A reeleição de Bentivi é uma oportunidade para que a cidade ajuíze sobre suas escolhas e suas prioridades. É um momento para ouvir, mais uma vez, a voz de Irislene.

“Vou ficar velhinha falando, meu filho morreu por negligência do gestor”, promete.

Itanhém precisa acordar. Precisa recuperar a memória. Precisa exigir que suas escolas sejam seguras, que seus gestores sejam responsáveis, que suas tragédias não sejam esquecidas. A morte de Flávio não pode ser apenas uma estatística enterrada nos arquivos da prefeitura. Ela deve ser uma baliza, um grito, um compromisso com a justiça e com a dignidade.

Enquanto Irislene envelhece com sua dor, Itanhém parece renovar sua capacidade de esquecer. Mas a história de Flávio Ramon não pode ser apagada. Sua morte é um lembrete de que a negligência mata, de que a insensibilidade política tem consequências, de que o silêncio é cúmplice. A reeleição de Bentivi é uma afronta à memória desse estudante, mas também uma oportunidade para que a cidade se mobilize, se organize e exija mudanças na política local.

Que a voz dessa mãe continue ecoando. Que a dor dela seja ouvida. Que a justiça, seja humana ou divina, prevaleça. E que Itanhém nunca mais permita que uma vida seja sacrificada em nome da incompetência, da irresponsabilidade e da insensibilidade de um prefeito. Porque a ferida da morte de Flávio Ramon não cicatriza — e não deve cicatrizar mesmo — enquanto a verdade não for reconhecida e a justiça, feita.

 

*Edelvânio Pinheiro é jornalista e escritor.

 

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O Água Preta News começou a operar, oficialmente, em 30 de agosto de 2016. A data – dia e mês – é a mesma do aniversário do poeta e jornalista Almir Zarfeg, cuja obra poética de estreia, “Água Preta”, deu nome ao site de notícias e entretenimento.

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