Por Edelvânio Pinheiro*
A política, em sua essência, deveria ser o espaço onde se busca o bem comum. Prefeitos e vereadores, eleitos pela confiança popular, assumem a missão de representar a comunidade, administrar recursos e propor soluções que melhorem a vida das pessoas. Mas, em Itanhém, essa missão muitas vezes é deturpada. Em vez de servir ao povo, alguns gestores passam a servir a si mesmos, aos familiares e a um pequeno círculo de aliados, ainda que existam exceções de vereadores que mantêm sua ética e compromisso com a população.
Platão, em sua obra A República, já alertava que quando o povo escolhe seus governantes de forma inconsciente ou por conveniência, acaba colocando no poder aqueles que não têm virtude e, portanto, não têm compromisso com a verdade.
O candidato que possui virtude é, de certo modo, limitado pela própria ética. Ele não consegue mentir, manipular ou prometer aquilo que não pode cumprir. Não promete empregos a eleitores, nem aluga veículos de aliados ou distribui secretarias a grupos políticos. O candidato virtuoso, sincero, dirá com franqueza que não tem como conceder privilégios ao seu grupo e que não pode prometer o que é ilegal ou injusto. E é justamente aí que ele perde espaço na disputa eleitoral. Certamente isso justifica a votação ínfima de empresários bem sucedidos como Saulo da Mecanon e Rodomarck Correia – apenas para citar dois exemplos - quando disputaram a prefeitura da cidade. Por outro lado, o candidato sem virtude promete o impossível, espalha calúnias, dissemina fake news e usa a bajulação para conquistar corações e votos. É fácil adivinhar quem, nesse cenário, o eleitor menos atento escolherá.
Sócrates já dizia que ninguém faz o mal voluntariamente, mas por ignorância. O eleitor que vota sem reflexão, influenciado por favores ou promessas pessoais, acaba elegendo o candidato sem virtude. E o resultado é que os piores governam.
Platão observava que quem chega ao poder tem acesso a todos os recursos e instrumentos para agir, inclusive para cometer injustiças com grande facilidade. A corrupção, nesse contexto, não é apenas uma possibilidade, é uma tentação constante.
Para evitar abusos, o sistema republicano criou mecanismos de vigilância. Os vereadores, por exemplo, existem para fiscalizar o prefeito, questionar seus atos e garantir que os recursos públicos sejam bem aplicados. Mas, na prática, o que se vê em Itanhém é que alguns vereadores, que deveriam fiscalizar Bentivi, muitas vezes se transformam em bajuladores. Em vez de questionar, aplaudem. Em vez de investigar, fecham os olhos. Em vez de representar o povo, passam a defender os interesses do gestor e de aliados próximos.
Essa inversão torna a democracia frágil, pois elimina o equilíbrio de poderes e pode transformar a Câmara Municipal em mera extensão da prefeitura. Se prefeitos e vereadores se comportam assim, parte da responsabilidade também recai sobre os eleitores. Quando o voto é dado sem consciência, sem reflexão, movido apenas por interesses pessoais ou promessas fáceis, abre-se caminho para que o candidato sem virtude vença. Platão advertia que se não elegermos os bons seremos governados pelos maus. Ou seja, se o eleitor não faz sua parte de maneira consciente, acaba fortalecendo justamente aqueles que governam contra os interesses coletivos.
A política precisa resgatar a virtude. Só com líderes éticos e comprometidos com a verdade é possível construir cidades mais justas, honestas e prósperas. O eleitor também precisa compreender que o voto não é moeda de troca nem favor pessoal, mas um ato de responsabilidade com toda a comunidade.
Prefeitos e vereadores que se alinham apenas para se beneficiar e beneficiar seus próximos traem a essência da política. A história e a filosofia nos ensinam que só a virtude pode limitar o poder, orientar a verdade e proteger a democracia.
Edelvânio Pinheiro é escritor, bacharel em Jornalismo, licenciado em Letras Vernáculas e pós-graduado em Ciências Políticas.