Quando eu morrer não deixem de avisar meus amigos e meus conterrâneos que me admiraram durante toda a minha vida de homem público e não esperem passar duas semanas para falar da triste notícia. Meus ouvintes e meus leitores precisam ser respeitados na hora da minha partida e têm todo o direito de se despedirem de mim no Ginásio de Esportes ou em qualquer outro lugar que aceitar o meu corpo, por pena ou em respeito a alguma virtude social ou política, que nas terras de Água Preta eu porventura tenha cultivado.
Mandem Athylla Borborema noticiar imediatamente a minha morte e fale logo pra Almir Zarfeg, quem sabe ele não faça pra mim uma aldravia de despedida. Meu irmão Edelvácio paga todas as minhas dívidas que ficarem no comércio e minha filha veterinária cuidará dos sete gatos, principalmente de Zelensky, o mais novo deles.
Preparem muito café, vários tipos de chás, coloquem em garrafas térmicas e sirvam as pessoas ao lado do meu caixão. Waguinho e Hinho cuidarão de servir aqueles que não arredarem o pé do ginásio durante a madrugada fria.
Se ‘Netinho de Zé Guela’ ficar fazendo graça em meu velório, não entenda isso como uma falta de respeito a minha memória; esse é o recurso psicológico que sempre encontra para driblar a tristeza pela falta de quem ele considera e admira.
Se alguém não tiver condição de pagar 300 reais por uma coroa de flores e optar por escrever, em letras garrafais, o que fiz de bom quando aqui estive, coloque a cartolina no mesmo lugar de importância de todas as demonstrações de carinho que chegarem ao velório.
Peço a Dra. Kerry Anne que, se o destino me deixar em algum leito de hospital do SUS, deixe meus bons e verdadeiros amigos por perto, para aquecerem o ambiente gelado. Não os julguem curiosos e permita que me revirem de perguntas porque não tenho nada a esconder. As dores também ficam amenas quando aqueles de que você gosta estão por perto.
Se alguém não puder me visitar nos meus últimos momentos, deixe que faça chamada de vídeo. A tecnologia está aí pra isso! Só quero a paz do silêncio quando a morte, enfim, fechar os meus olhos mas, enquanto isso não definitivamente chegar, prefiro o barulho daqueles que me amam ou que me são gratos.
Sobre o que deixar, construí poucas coisas na vida, acho que nem precisa falsificar testamento ou esconder minha morte enquanto brigam por aquilo que foi meu.
Sigo com a consciência de nunca ter roubado o dinheiro do povo. O golzinho de 2010 dê ao Missionário Marcos, deverá ajudá-lo na nobre corrida para socorrer famílias que sofrem com viciados em entorpecentes dentro de casa.
O que tenho bastante, talvez nem interesse a muitos, são livros e mais livros - inclusive as seis obras que escrevi -, mas esses já têm donos cativos, os herdeiros e as herdeiras do conhecimento. Briguem pelos meus livros!
Depois da celebração do padre Vagner e do pastor João Batista, me enterrem no cemitério que o prefeito Mildson Medeiros está construindo na saída de Santa Rita. E não chorem na minha partida, que vou estar sempre com meu uniforme de beretta.
*[Edelvânio Pinheiro é escritor, jornalista e radialista. Tem licenciatura plena em Letras Vernáculas e pós-graduação lato sensu em Ciências Políticas]
Fonte/Créditos: Crônica de Edelvânio Pinheiro