Mania ruim que ricos e puxa-saco de ricos têm de olhar pobres de cima pra baixo. Até na festa de aniversário dos 64 anos da cidade, quando todos deveriam sentir-se iguais pelo menos por algumas horas comemorativas, inventam um tal de camarote para satisfazer o prazer que eles têm de olhar a pobraiada lá do alto.
Não fui à festa em nenhuma das três noites. Não gosto que fiquem me olhando atravessado e muito menos de cima para baixo. Preferi me recolher à minha humilde pobreza a me submeter à arrogância da classe que acha que tem sangue azul e que vergonhosamente aproveita o dinheiro do povo para fazer festa, tomar uísque importado e comer as deliciosas empadinhas de camarão feitas por Nidinho e Sandrinha.
Para acessar o camarote da discórdia, era necessária uma pulseira que dava a você, por alguns instantes, o título de nobreza. O público foi tão seletivo naquele espaço que nem sequer cabiam os representantes do Poder Legislativo. Os vereadores que conseguiram entrar ali tiveram que esbravejar, empurrar seguranças e ameaçar parar de ficar rasgando seda para o prefeito nas reuniões da Câmara Municipal e, a partir de agora, serem o que nunca ou poucas vezes foram: vereadores de verdade.
Com visão privilegiada, de lá não era necessário esticar o pescoço, como tiveram que fazer os simples mortais, para ver o ídolo Amado Batista cantar "princesa, a deusa da minha poesia". Afinal ricos não podem inflamar os esternocleidomastóideos, se não como dariam gargalhadas dos pobres no dia seguinte?
Não é desejo deste humilde contador de história dividir ainda mais os clãs e os pseudoclãs dos pobres sofridos das terras de Água Preta. A intenção é apenas alertar os gestores dos cofres –onde fica guardado o dinheiro que chega de longe para servir o povo – para o seguinte: quando riquinhos quiserem ouvir o mais amado do Brasil ao vivo e comer empadinhas de camarão que vendam seus bois.
Fonte/Créditos: Crônica de Edelvânio Pinheiro