Foi na segunda-feira (23) que a Câmara Municipal de Itanhém assistiu a um daqueles raros momentos em que a política deixa de ser teatro e se transforma em verdade. O prefeito Bentivi (PSB) foi à Casa Legislativa cercado por toda a sua equipe de governo, num aparato que mais parecia um ato de campanha do que um gesto de transparência. Talvez nem a recente visita do governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), à cidade, recebeu tanto secretário municipal. Bentivi havia prometido mais cedo “esclarecimentos” e discursar sobre o compromisso com “a verdade dos fatos”.
Bentivi adora fazer esclarecimentos, desde que o assunto não seja a sua própria gestão. Desta vez, no entanto, ele encontrou pela frente quem não estava disposta a se curva a encenações. A vereadora e ex-prefeita Zulma Pinheiro (MDB) falou, com a autoridade de quem realmente sentou na cadeira do gabinete da prefeitura e enfrentou o caixa negativado e, por extensão, acabou lavando a alma de uma população cansada de ouvir meias-verdades.
O prefeito foi à Câmara para rebater informações do ex-prefeito Mildson Medeiros, mas quem acabou colocando os pingos nos “is” foi Zulma Pinheiro. Com a frieza de quem conhece os números e a emoção de quem viveu o descaso, ela devolveu o debate à realidade dos fatos. Sem rodeios, a vereadora lembrou que, ao assumir a prefeitura em 2017, não pegou o município zerado, mas sim negativado. O FPM (Fundo de Participação dos Municípios) de janeiro estava sequestrado porque o antecessor – o próprio Bentivi – deixou de pagar o INSS em novembro, dezembro e o décimo terceiro.
E a lista de heranças malditas não parou por aí. Zulma revelou o que poucos tinham coragem de expor: uma frota sucateada, com o SAMU detonado, carros sem bateria, sem pneus e até sem a bomba do lavador de carros da prefeitura. Escolas, como o Colégio São Bernardo – palco da tragédia que vitimou um aluno eletrocutado por falta de manutenção na gestão anterior de bentivi – foram reformadas com suor e recursos próprios, após 12 anos de abandono, segundo Zulma Pinheiro.
Enquanto Bentivi levou sua comitiva para assistir à sua apresentação, foi Zulma quem mostrou, naquele momento, o que é, de fato, responsabilidade pública. Ela relembrou que, ao deixar o cargo, pagou todos os funcionários até o último dia, deixou o sistema do Banco do Brasil aberto até as 18h para quitar fornecedores e ainda entregou mais de R$ 5 milhões em caixa ao seu sucessor, além de garantir o precatório dos professores, segundo ela. Uma diferença brutal da forma como ela recebeu a prefeitura do atual gestor, na ocasião.
Diante dos argumentos da ex-prefeita, Bentivi tentou recorrer ao velho discurso de que iria trazer “papéis” para provar suas alegações, uma prática conhecida por todos em Itanhém, onde promessas de provas raramente se concretizam. O nervosismo estampado no rosto do prefeito ficou claro que não há documentos que contraponham a verdade mostrada por Zulma Pinheiro, por quem viveu na pele a dificuldade de arrumar a casa deixada às traças por Bentivi.
Zulma Pinheiro não foi à Câmara para um embate vazio e ela deixou isso muito claro em sua fala. Ela foi para dizer à população que sua gestçao não começou zerada, foi ainda pior: começou negativada em razão da irresponsabilidade de bentivi, após oito anos de mandato. Ela foi para lembrar que cobriu os índices da Saúde e da Educação que Bentivi deixou de atingir, travando o município. E foi para mostrar que Bentivi vai à Câmara de Vereadores para tentar construir narrativas fictícias de transparência e verdade.
No plenário da Câmara de Itanhém nesta segunda-feira, diante de um prefeito acuado e de uma população sedenta por justiça política, Zulma Pinheiro, além de defender seu legado, lavou a alma do povo de Itanhém. Porque falar a verdade na cara do poder, com números na mão é um ato de coragem que poucos têm.
Fonte/Créditos: Por Edelvânio Pinheiro
Créditos (Imagem de capa): Prefeito Bentivi e ex-prefeita e vereadora Zulma Pinheiro.
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