Em Itanhém, um episódio recente revelou até onde pode chegar a submissão de instituições que deveriam existir para defender os interesses de seus associados. Refiro-me ao posicionamento do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e do Sindicato dos Produtores Rurais diante da absurda exigência do prefeito Bentivi, do PSB, ao obrigar produtores a fornecer combustível para que a prefeitura realize o patrulhamento das estradas vicinais. Obriga, sim - o verbo está bem empregado -, porque está implícito que, se o combustível não for fornecido, a patrol cedida pelo governo do estado para atender a todo o município simplesmente não chega às fazendas, aos sítios e nem às comunidades rurais.
Trata-se de um completo desvirtuamento do papel dos sindicatos. O Sindicato dos Trabalhadores Rurais, que deveria ser a voz dos pequenos agricultores, dos mais pobres, daqueles que dependem das estradas para escoar a pouca produção que têm, preferiu fechar os olhos e se alinhar ao poder. Do outro lado, o Sindicato dos Produtores Rurais, que representa fazendeiros e médios proprietários, também se cala e, pior, aceita contribuir para esse jogo sujo. É inadmissível que, em pleno século XXI, sindicatos, compostos por pessoas esclarecidas e politicamente preparadas, se prestem a legitimar um absurdo dessa natureza.
Ora, a manutenção das estradas vicinais é dever constitucional do município. O cidadão já paga impostos altíssimos e não tem que arcar novamente com custos de combustível para que a prefeitura cumpra o mínimo de sua obrigação. Aceitar essa prática é avalizar um retrocesso que só reforça a irresponsabilidade de uma gestão marcada por favorecimentos e privilégios.
Não é segredo para ninguém que Bentivi tem governado voltado para seus amigos e familiares. Empregos em cargos da prefeitura são distribuídos como moeda de troca; empresas ligadas ao seu círculo íntimo têm espaço garantido em contratos e licitações. E, diante desse cenário, os sindicatos, que deveriam se insurgir, denunciar e proteger o povo, acabam virando cúmplices, se colocando à disposição para a defesa de um ato duvidoso, ridículo e vergonhoso, sob qualquer ângulo que se queira enxergar.
A história cobrará caro essa escolha. A população de Itanhém estar diminuindo assustadoramente. Não custa lembrar que, na mesma proporção em que a população encolhe, encolhem também os recursos destinados ao município para cuidar das questões básicas, como saúde, educação e infraestrutura. Quando sindicatos deixam de ser trincheiras de resistência para se transformar em correias de transmissão de um prefeito irresponsável, traem seus associados e traem também todo o município. Pior ainda, traem a esperança de quem acreditava que ainda restavam vozes independentes em Itanhém.
Em vez de defender o povo, os sindicatos preferiram o silêncio cúmplice e a adesão servil. E, nesse caminho, acabaram se tornando parte do problema, e não da solução.
É bom avisar aos navegantes que, no nosso entendimento, o posicionamento semelhante de uma cooperativa ou mesmo do presidente da Câmara Municipal parece estar mais ligado a uma decisão estritamente política, voltada para acordos de bastidores e manutenção de interesses. Isso, de certo modo, é próprio da política e até pode ser compreendido dentro de sua lógica, embora não seja justificável. Mas é muito diferente do papel de um sindicato, cuja razão de existir é defender, com firmeza e independência, os direitos de seus associados diante do poder público e dos interesses econômicos. Quando a lógica sindical é substituída pelo jogo político, perde-se a essência da representação, e quem sai derrotado é o povo.
Se até os sindicatos se dobram, Pio Gazzinelle e Zé Dias, quem ainda terá coragem de ficar de pé pelo povo? Respondam a essa pergunta às suas consciências sindicalistas, se é que vocês ainda sabem o que é ter consciência sindical.
Fonte/Créditos: Por Edelvânio Pinheiro
Créditos (Imagem de capa): Falas de representantes dos dois sindicatos no Pod Café News.