Por Edelvânio Pinheiro*
Há momentos em que a política despe o discurso e mostra o homem. Na segunda-feira (5), no plenário da Câmara Municipal de Itanhém, foi assim. Eleito pela segunda vez presidente do Legislativo, em chapa única, Renato Correia poderia ter feito um discurso protocolar, de fórmulas prontas e agradecimentos de ocasião. Preferiu o caminho mais difícil, e mais verdadeiro, deixando a emoção falar por ele.
A voz embargada veio mais de uma vez. As lágrimas vieram quando ele lembrou do apoio dos colegas vereadores, em especial do atual presidente, Paulinho Correia, e de Deusdete, pessoa de grande influência sobre o vereador Fábio de Ibirajá. Vieram também ao agradecer a presença da advogada Kerry Anne, que foi sua assessora jurídica na gestão anterior à frente da Casa e que é, antes de tudo, uma amiga pessoal.
Dizem que a maior virtude de um ser humano é a gratidão. Cícero a chamou de mãe de todas as virtudes. Não por ser a mais vistosa, mas por ser a que sustenta as demais. Quem reconhece que não chegou sozinho aprende a ter humildade. Quem tem humildade sabe ouvir. E quem sabe ouvir governa melhor.
Os manuais clássicos do poder, de Maquiavel a Sun Tzu, ensinam a desconfiar, a calcular e a se proteger. Perdoem-me os que os leem essas obras como cartilha, mas a política que vale a pena não se esgota nisso. Gratidão não é fraqueza; é a consciência de que ninguém constrói nada de relevante sem mãos que o ajudem a levantar. Renato Correia mostrou, diante do plenário, que é possível chegar ao poder sem esquecer quem estendeu a mão.
O presidente da Câmara a partir de 2027 demonstrou saber disso na seção desta segunda-feira. Ao chorar diante de colegas, amigos e da população presente, não deu um espetáculo; prestou uma homenagem. Reconheceu publicamente aqueles que lhe estenderam a mão nos momentos fáceis e, sobretudo, nos difíceis, como ele mesmo disse em seu discurso.
Quem convive nela sabe que na política, ingratidão é moeda corrente. Não são raros os que sobem os degraus esquecendo quem segurou a escada. Por isso, ver um homem público chorar ao agradecer tem um valor que ultrapassa o momento. Mostra lealdade, e lealdade é o que dá solidez a qualquer grupo político.
Ao declararem voto, os vereadores Fábio, Luismar, Jurandir, Gerson Piccoli, Nem Mendes e Deó afirmaram conhecer a forma de atuação de Renato e destacaram sua honestidade, transparência e responsabilidade. Não se vota assim em quem se conhece pouco. Esse respaldo é fruto de convivência, de palavra cumprida e de uma trajetória construída com os próprios colegas.
Também merece registro o gesto de reconhecimento a Paulinho Correia, homenageado por vereadores e aplaudido pela população pela forma responsável e honesta com que conduz a Câmara. Renato será presidente a partir do próximo dia 1º de janeiro, ao lado de Paulinho, na vice-presidência, e de Fábio e Luismar, nas secretarias. É a continuidade de um grupo que se propõe a manter o diálogo, a transparência e o zelo com os recursos públicos.
Gratidão, porém, não se esgota em lágrimas nem em palavras bonitas. Ela se prova em atitudes. O mesmo povo que aplaudiu na sessão vai cobrar, a partir de 2027. O que se espera, então, é que a emoção que vimos no plenário da Câmara Municipal se traduza em trabalho, e que a humildade anunciada no discurso de Renato, de ver a presidência como "lugar de serviço" e não de poder, se confirme no dia a dia daquela Casa do Povo.
Se o início serve de indício, o caminho é promissor. Um presidente que sabe agradecer tende a lembrar que está ali para servir. E, em tempos de tanto cinismo na vida política do município de Itanhém, um líder capaz de se emocionar diante de quem o ajudou já oferece um bom começo; o começo de quem não esqueceu de onde veio, nem de quem esteve ao seu lado no caminho.
*Edelvânio Pinheiro é escritor, autor de oito livros, bacharel em Jornalismo pela UCA, tem licenciatura em Letras Vernáculas pela UNEB e pós-graduação em Ciências Políticas.