Eu ouvi a música que fizeram para a gestão do prefeito Bentivi pela primeira vez como quem escuta uma brincadeira de rede social. Forró simples, refrão fácil, ironia popular. Mas não se tratava apenas de gozação. Havia naqueles versos uma crônica política cantada, dessas que o povo produz quando o discurso oficial já não convence mais.
A música não viralizou à toa. Viralizou porque diz o que muitos sentem, usando uma arma antiga e eficaz, que é a sátira popular, herdeira direta do cordel, da cantiga nordestina, que ri para não chorar.
Literariamente, a música constrói uma metáfora central muito clara. O “passarinho”, ave pequena, voo baixo, contrasta com a pose de “gavião”, ave de rapina, símbolo de força e domínio. O resultado é um personagem que fala grande, promete alto, mas não entrega nada ou quase nada. O voo nunca decola. A gestão “não sai do chão”. Essa imagem, simples e potente, organiza todo o sentido da poesia.
Politicamente, o eixo da crítica é a substituição de políticas estruturantes por ações cosméticas. Onde se esperam obras de vulto, surgem inaugurações de quebra-molas. Onde se cobra asfalto, escola e estrada durável, entrega-se festa, placa e discurso. O refrão, repetitivo e quase hipnótico, cumpre verdadeiramente a sua função, que é martelar na consciência do povo de Itanhém que o excesso de quebra-molas simboliza a ausência de compromisso com o desenvolvimento da cidade.
O episódio da estrada de Santa Rita, citado na música, é exemplar. Meio milhão gasto, festa feita, promessa anunciada, até que a chuva, elemento natural e previsível, revela a fragilidade das raras obras do prefeito Bentivi. O barro sobe, a estrada atola, a embreagem queima.
Do ponto de vista social, a poesia ganha densidade quando abandona a ironia leve e adentra o terreno da denúncia. A burocratização da pobreza, a humilhação imposta como requisito para o acesso à cesta básica e o contraste entre quem precisa “provar que é pobre” e quem “não para de faturar” revelam uma leitura sociológica fina das relações de poder. Nesse momento, a música deixa de ser apenas um meme e se afirma como documento simbólico de um tempo político vivido pela população itanheense.
A musiquinha, apesar do ritmo animado e quase despretensioso, acabou me levando de volta aos quatro anos e meio que passei nos bancos da UNEB e às muitas noites mal dormidas, tentando conciliar trabalho e estudo. Foi justamente essa formação, construída entre a prática e a teoria, que aguçou meu olhar para um elemento literariamente muito interessante presente na letra da música, que são as zonas de ambiguidade lexical.
Em versos como “no posto [parece ser] Ribeiro” ou “no mercado [parece ser] Ribeiro”, é possível ouvir, entender também a palavra “bueiro”. Essa ambivalência não empobrece o verso; ao contrário, acaba enriquecendo ele como metáfora. “Bueiro” funciona como imagem de escoamento, de drenagem de recursos, de algo que desaparece sem deixar rastro. O mesmo ocorre no verso “o lucro é [parece ser] dos pássaros”, que também pode ser ouvido, entendido como “o lucro é do espaço”. Ambas as leituras se sustentam e se mostram coerentes, literária e politicamente eficazes.
Digo que “parece ser Ribeiro” levando em conta o contexto sócio-político de Itanhém, especialmente a relação política e de amizade que o prefeito Bentivi mantém com alguns membros dessa família. Ainda assim, reconhecer a possibilidade de “bueiro” e “espaço” não fragiliza a análise que ora faço; pelo contrário, mostra como a canção opera no campo da insinuação poética, onde dizer sem dizer é, muitas vezes, a forma mais segura, e mais inteligente, de dizer. Copiou?
Outro ponto que chama atenção é a autoria. Não sei quem escreveu a letra nem quem compôs a melodia. Mas, isso pouco importa para o internauta. A música simplesmente apareceu e, em pouco tempo, já estava em todo lugar. Tudo leva a crer que se trate de produção com auxílio de inteligência artificial, principalmente por essas indefinições lexicais que citei acima, típicas de transcrições automáticas e sínteses algorítmicas. Isso mostra a tecnologia a serviço do inconformismo popular. Isso é muito bom e a democracia agradece.
Também tomei a ousadia de dar título à poesia: O passarinho e o quebra-mola. Porque ali está tudo. O voo curto, a ambição alta, o obstáculo repetido, o salto forçado do povo. Uma cidade cansada de pular quebra-molas enquanto as intenções da gestão do prefeito Bentivi nunca foi atender às necessidades da população.
VEJA a letra da música:
O passarinho e o quebra-mola
Lá vem um homem com pose de gavião,
mas a gestão é curta, não sai do chão.
Obras de vulto ninguém nunca viu,
o progresso em Itanhém sumiu.
Ele diz que trabalha, que é um fenômeno,
mas o projeto dele é bem pequeno.
O povo esperando, assalto e escola,
ele inaugurando… quebra-mola.
Gastou meio milhão na Santa Rita,
fez uma festa, coisa mais bonita.
Mas veio a chuva e o plano desandou,
o barro subiu e a estrada atolou.
A vergonha foi grande, foi grande a tolagem,
até o carro de Sandra Adolsante
queimou a embreagem.
Na Rua Itaúna, que ideia genial:
queria fazer um beco, projeto oficial.
Calçamento estreito, apertado, sem jeito,
é a marca registrada do nosso prefeito.
E pra fazer estrada, ele chega ao produtor:
“Me dá o óleo, dizê, faz esse favor”.
A prefeitura sem nada, em situação,
é o governo do pires na mão.
É tanto quebra-mola que Itanhém quebrou,
o passarinho voou baixo e nada restou.
É tanto quebra-mola que o povo cansou,
o dinheiro sumiu, mas o buraco ficou.
Pra falar com o homem, pega senha esperta,
mas pra primeira desgrama, a vida é uma era.
Se o pobre tem fome, quer cesta básica,
passar por entrevista — coisa fantástica.
Tem que provar que é pobre, tem que se humilhar,
enquanto os amigos não param de faturar.
É o milhão da costura, o milhão do paredão,
no posto [parece ser] do Ribeiro, a conta é de patrão.
No mercado [parece ser] do Ribeiro, o lucro é certeiro,
enquanto o povo conta o seu derradeiro.
Ele pega carona na obra alheia,
diz que é dele o que o outro semeia.
O ex-prefeito fez, o presidente da Câmara também,
e o passarinho diz: “fui eu”, amém.
É, meu povo, o olho é seu, a obra é dos outros,
o lucro é do [parece ser] pássaro… e pra você?
Pra você tem um quebra-mola novinho
pra você pular no caminho.
É tanto quebra-mola que Itanhém quebrou,
o passarinho voou baixo e nada restou.
É tanto quebra-mola que o povo cansou,
o dinheiro sumiu, mas o buraco ficou.
Fonte/Créditos: Por Edelvânio Pinheiro
Créditos (Imagem de capa): A imagem de capa é criada por inteligência artificial.