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Moralidade pra quê se a conta não está mais pocada?

Mas eis que a nica, aquela moedinha escorregadia e sorrateira, começou a cair com força no cofre em formato de rato.

Moralidade pra quê se a conta não está mais pocada?
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*Crônica de Edelvânio Pinheiro

O Padre Antônio Vieira, expoente do Barroco, mestre da palavra retorcida e das verdades lapidadas como ouro velho de altar — daqueles que enfeitam as igrejas da velha capital da Bahia —, em um de seus brilhantes sermões, desceu a lenha no falso moralismo e na hipocrisia humana.

Lembrei dele, e não foi por acaso. Foi durante minha passagem pelo curso de Letras Vernáculas na Universidade do Estado da Bahia que aprendi a decifrar suas entrelinhas flamejantes e suas palavras labirínticas, afiadas como navalha de barbeiro antigo. Estudar Vieira ali, onde o barroco ainda respira pelas sacadas da Sé, pelos púlpitos carcomidos das igrejas e nas capelas centenárias que visitei no Pelourinho, em Salvador, é quase um ritual de iniciação. A gente entende que ele não escrevia apenas para o tempo dele — mas para todos os tempos em que a hipocrisia veste batina, terno ou farda, e a moralidade é artigo de vitrine, bonita, cara e falsificada.

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E veja só: o sermão foi escrito no século XVII, mas parece que foi ditado ontem, ali mesmo, na praça da prefeitura, onde, do outro lado, fica a Câmara de Vereadores, logo depois da missa de sétimo dia da vergonha.

Pois é. Enquanto a conta estava pocada, a esposa — uma verdadeira santa moralista de rodapé, com a Bíblia numa mão e o dedo em riste na outra — não cansava de encher o saco do marido por causa de uma cachacinha no fim de semana. Um gole era tratado como se fosse um pacto com o coisa ruim. “É o demônio atentando!” Tá lembrando?

Mas eis que a nica, aquela moedinha escorregadia e sorrateira, começou a cair com força no cofre em formato de rato. E aí, meus caros, a preocupação com a moral foi bater perna por aí com a compostura e a decência — três almas penadas, como aquelas figuras que só aparecem em assombração de discurso bonito nas redes sociais.

Hoje, o marido — conhecido nos quatro cantos da cidade como Cara Fofa — desfila de paletó novo, sorriso plastificado e alma penhorada, parecendo um santinho de campanha mal diagramado, impresso às pressas na gráfica, pago com dinheiro dos amigos que sempre bancaram suas despesas.

E, por mágica ou por conveniência mesmo, ninguém mais reclama das suas cachaças. Agora é tudo parte da “agenda informal” ou de um “relaxamento estratégico”, como dizem por aí, com ar de quem acha que falar difícil disfarça pilantragem e canalhice.

Daqui a pouco, só falta mesmo um cachorro vira-lata, de novo, lamber a boca dele num cabaré em Maceió ou Salvador, ao som de forró eletrônico, com luzes de LED piscando, garrafa de uísque na mesa e a conta do povo no débito automático. Tudo, é claro, pago com aquele dinheiro que deixou de ser investido no remédio da dona Maria da Pipoqueira ou na cesta básica do seu João do Algodão Doce.

Aproveita, Cara Fofa. Quatro anos passam num piscar de olhos... ou num gole de uísque 12 anos, pago com nota fria e consciência vencida.

E a moralidade?

Ah, essa não se acha nem com reza forte, quanto mais quando a conta não está mais pocada.

 

*Edelvânio Pinheiro é jornalista e escritor.

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