No primeiro dia do ano, a eleição para a mesa diretora da Câmara de Vereadores de Itanhém revelou o que muitos já temiam: uma aparente unidade que mascara a ausência de debate e oposição. O desfecho foi previsível. Apesar de tentativas isoladas de articular uma alternativa, todos os vereadores acabaram votando em Paulinho Correia, do PSB, mesmo partido do prefeito Bentivi, para a presidência. O resultado sugere, mais uma vez, que a democracia em Itanhém segue estagnada, como na célebre expressão: “tudo continua como antes no quartel de Abrantes”.
A origem dessa frase remonta ao início do século XIX, quando Napoleão Bonaparte invadiu Portugal. O general Jean Junot, braço direito de Napoleão, instalou seu quartel-general em Abrantes, uma cidade a 152 quilômetros de Lisboa. Com a corte portuguesa refugiada no Brasil e sem resistência efetiva no território, Junot encontrou tranquilidade para governar. A situação inspirou o ditado irônico para descrever a inércia e a falta de mudanças: “Está tudo como dantes no quartel d’Abrantes”.
Agora, pergunto: é saudável para a democracia itanheense que nossa Câmara de Vereadores funcione sob o manto da unanimidade? Será que não há nada a ser discutido, nenhum ponto de vista divergente que mereça espaço? Democracia pressupõe pluralidade. Ela se fortalece no confronto respeitoso de ideias e se enriquece com a oposição, que fiscaliza, questiona e propõe caminhos alternativos.
A eleição da presidência da Câmara foi mais uma peça de um jogo previsível. Apesar de algumas articulações para que houvesse uma disputa, o cenário final foi o de sempre: alinhamento total com os interesses do Executivo, ou seja, do prefeito Bentivi. Coincidência ou não, o prefeito, nos bastidores, demonstrou clara preferência para que o líder da mesa diretora da Câmara fosse de seu partido. O resultado beneficia quem ocupa o poder, mas enfraquece a independência do Legislativo Municipal.
É preciso refletir sobre o que significa essa aparente unidade. Será que estamos diante de uma Câmara que tem medo de divergir? Ou será que prevalece o interesse pessoal sobre o coletivo? Uma Câmara que não questiona, não discute e não confronta, ainda que respeitosamente, compromete sua função principal: representar a população com independência e fiscalizar o Executivo.
A ausência de oposição é um alerta para qualquer democracia, especialmente em cidades pequenas como Itanhém. A homogeneidade política pode ser confortável para quem governa, mas deixa o cidadão vulnerável. Afinal, quem garante que os interesses da população estão sendo defendidos quando todos parecem concordar em tudo?
É hora de os vereadores de Itanhém refletirem sobre seu papel. A população espera mais do que obediência cega ou articulações de bastidores. Espera debates, propostas e, acima de tudo, coragem para defender os interesses da cidade, mesmo que isso signifique contrariar o prefeito ou os colegas de siglas partidárias.
A população, claro, precisa ficar de olho, especialmente nos vereadores que não fiscalizam nada e comparecem às reuniões de segunda-feira apenas para elogiar o prefeito e seus secretários.
Fonte/Créditos: Por Edelvânio Pinheiro