Por Edelvânio Pinheiro*
Os últimos dias que antecedem as eleições no município de Itanhém vivem momentos de intensa efervescência e indignação popular. O vazamento de dois áudios gravados por um prestador de serviços da prefeitura conhecido como Nego Loro, uma figura declaradamente aliada ao prefeito Bentivi (PSB), sugere o uso da máquina pública para fins de intimidação eleitoral e controle político-ideológico, desencadeando uma onda de repercussão que ultrapassou as conversas informais e tomou conta dos grupos de WhatsApp e das redes sociais de forma geral.
A mensagem contida nas gravações direcionadas ao vereador Jurandir (DC), também aliado político do prefeito, vai muito além do debate político saudável. Na verdade desenha um retrato cru de práticas truculentas, suposto monitoramento sistemático de servidores e veladas ameaças de exoneração e retaliação profissional.
OUÇA os áudios no final do artigo.
Um dos aspectos mais estarrecedores do episódio é o ensurdecedor silêncio do prefeito Bentivi diante de acusações e condutas gravíssimas que envolvem diretamente a sua gestão. Em um momento em que a população exige, nas redes sociais, explicações imediatas, o gestor preferiu, pelo menos até agora, a omissão.
Esse comportamento omisso gera leituras inevitáveis no ambiente político.
Ao afirmar categoricamente nos áudios que tem "força no governo" e que vai "levar ao conhecimento de Bentivi", Nego Loro fala com a autoridade de quem se sente respaldado pela cúpula do prefeito.
Em uma gestão democrática, a postura mínima esperada do chefe do Executivo em situações como essa, seria afastar o colaborador da campanha, e, no mínimo, assegurar aos servidores públicos total liberdade de consciência e voto. Ao se calar, Bentivi valida a retórica do medo.
As falas desesperadas de Nego Loro também revelam uma fragilidade política implícita da atual gestão de Bentivi. Quando Nego Loro, sugere que o grupo político precisa recorrer a monitoramentos, redes de "espiões" e ameaças de "bloqueio" (que na fala dele significa perda de cargos ou retaliações) contra os próprios servidores públicos, fica claro o enfraquecimento do prestígio eleitoral do prefeito.
O fato de servidores estarem bloqueando o aliado de Bentivi nas redes sociais para não receber material de campanha dos candidatos a deputado apoiados pelo prefeito mostra, indubitavelmente, um claro desgaste e rejeição.
Sem a chamada "moral política" ou a capacidade natural de persuasão, Bentivi e seus aliados percebem que o engajamento espontâneo ruiu. A insistência truculenta de Nego Loro prenuncia um resultado fraquíssimo e decepcionante nas urnas para os deputados apadrinhados pela prefeitura.
Jurandir
A escolha do vereador Jurandir (DC) como destinatário dos áudios mostra, inegavelmente, a dinâmica de articulação política e pressão sobre os parlamentares da base ou interlocutores da adiministração municipal. Essa é a leitura que faço com a experiência política que adquirir ao longo dos anos.
Existem razões muito importantes para essa leitura que fiz. Senão, vejamos:
Por ser uma autoridade pública, um vereador, no caso Jurandir, é enxergado por Nego Loro como um vetor capaz de transmitir o recado em tom de ultimato aos funcionários públicos e lideranças ligadas ao seu círculo político.
A cobrança de alinhamento que Nego Loro faz nos áudios ameaçadores, trata-se de uma estratégia para forçar o vereador a "enquadrar" sua base eleitoral ou os servidores sob sua indicação, garantindo que estes sigam rigidamente a cartilha da gestão do prefeito.
Outro ponto importante a ser analisado é o fato de, ao avisar o vereador que "tem espião" em todo canto, inclusive citando a atuação abrangente em Itanhém e no distrito de Ibirajá, Nego Loro busca demonstrar poder de controle territorial e institucional em todo o município.
Ao analisar minuciosamente os dois áudios vazados, é possível destacar vários elementos graves do ponto de vista ético e, jurídico também. Relacionar a permanência no emprego ou a preservação de direitos dos servidores ao apoio de determinados candidatos é prática abusiva e, pode configurar assédio eleitoral e abuso de poder político. As frases dos áudios “tô passando pra vocês o recado desde agora” e “estou avisando mais uma vez... para depois não se arrepender” comprovam que a intimidação vinha ocorrendo de maneira sistemática e contínua. E, por fim, a confissão de ter "intermediário em tudo quanto é canto" e mandar "espião" em Itanhém e Ibirajá desenha uma estrutura criminosa de patrulhamento ideológico sustentada por pessoas ligadas à gestão municipal.
Memes
A reação da sociedade itanheense ao vazamento não tardou. Em vez do silêncio temeroso, a população respondeu com indignação e forte ironia, transformando o caso em combustível para sátiras e memes que circularam amplamente na internet nas últimas semanas.
Um dos memes é uma imagem montada, retratando a truculência com tom humorístico e de protesto. A foto de Nego Loro aparece segurando um chicote ao lado de um caminhão da prefeitura com trabalhadores curvados sob intimidação e balões de fala contendo frases como “Eu quero ver todo mundo votando nos meus candidatos; quem não votar vai ter problema”.
O meme sintetiza exatamente o sentimento que tomou conta das redes sociais, mostrando o repúdio à ideia de que "a prefeitura tem dono" e que o funcionalismo público deva ser tratado como curral eleitoral ou sob a ameaça de punições.
O escândalo dos áudios de Nego Loro escancara as vísceras de um modelo político ultrapassado, baseado no medo, na vigilância e no abuso de poder. A omissão do prefeito Bentivi perante a gravidade dos fatos só reforça a percepção pública de que a intimidação aos funcionários locais conta, no mínimo, com a sua confortável aplauso.
O lado positivo de tudo isso é que a democracia e a liberdade de voto em Itanhém mostram-se vivas na resistência da população, demonstrada pela indignação manifestada nas redes sociais nos últimos dias.
*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo, licenciado em Letras Vernáculas e pós-graduado em Ciência Política. Escritor, é autor de oito obras literárias, incluindo um livro infantojuvenil publicado pela editora Flamingo.
Fonte/Créditos: Meme com imagem de Nego Louro, aliado político do prefeito Bentivi, relacionado aos áudio ameaçando servidores municipais.