A poesia de Cynara Novaes cativa pela espontaneidade, pela simplicidade, pelo chamamento às coisas simples do cotidiano, fazendo da sua arte um convite permanente à busca pela felicidade. Trata-se do despertar da simplicidade em forma de poesia.
Os poemas parecem nascer da essência da alma da poeta, desfilando toda a sua beleza de sensibilidade feminina, simples e natural, em relatos onde desfilam memórias, tecidos, bordados, natureza e cenas domésticas do dia a dia, que dialogam de uma forma ou de outra, com todos nós.
Em um mundo onde nos distanciamos cada vez mais do verdadeiro convívio humano, de afetos e empatia, a poeta nos transmite a urgência deste encontro entre nossos pares, onde a natureza também está sempre presente em sua produção poética, assim como o simples prazer do lar, doce lar,
Nada tão complicado para o amanhã:
chinelo para ficar em casa,
café no copo, panela velha no fogo,
flor aparecendo na janela.
E para o coração, esparadrapos e delicadezas.
[Esparadrapos e delicadezas, p. 31]
A poeta deixa claro a sua opção pelo estilo de vida que lhe apraz, sabe que o convívio entre as pessoas, em qualquer contexto social exige o cuidado da delicadeza no trato interpessoal e dos esparadrapos da alma, sempre que se fizer necessário. As imagens do lar em volta com a natureza, estão sempre presentes, como neste poema, provavelmente, como reflexos das memórias de sua infância e adolescência, e que também fazem parte da vida de muitos de nós, que ela gentilmente compartilha com seus leitores.
Em meio a todas estas temáticas, Cynara demonstra também preocupação, apreço, solidariedade, em vários de seus poemas, aos mais necessitados e excluídos do tecido social,
Maria voltou da feira
como quem havia comprado o dia.
[...]
Para o almoço fez de tudo um pouco,
com seu modo elegante e seu vestido quase roto.
Separou da vida o amargo, o bagaço e o caroço.
Quando a noite principiou, ela, sem titubear,
fez das sobras da compra um caldo,
saboreando-o sem nem mesmo experimentar.
Ela o continha.
Maria foi menina de sonhos sempre descalços,
[.....]
[Acalanto para Maria, p. 28 ]
E, assim, os aspectos sensoriais e de percepção do mundo que rodeia a poeta estão presentes em seus textos, perfilando memórias, simplicidade, metalinguagem e seu amor pelo fazer poético, em um exercício estético que cativa o leitor, da primeira à última página, Encontro-me no vão entre os parágrafos/no sussurro das entrelinhas/no perfume adocicado do poema/nos sutis sinais que avisam, ainda na curva/a chegada da inspiração [Endereço, p.150].
Em um mundo caracterizado pela crescente distopia, desumanização e crescente consumismo desenfreado, a poesia de Cynara Novaes é extremamente relevante e necessária, configurando-se mesmo como uma espécie de “resistência histórica”. Partindo de temas aparentemente simples, a poeta teixeirense faz a transcendência natural e sutil para discussões e reflexões filosóficas/existenciais, sem que o leitor perceba, num jogo literário muito aprazível e interessante.
Por tudo isso, parabéns, e obrigado, poeta, por este belíssimo e imprescindível “Carta poema” (Editora Opção, 2015)! Ave, literatura!