Minha mãe, Maria Pinheiro, que já não está entre nós, costumava dizer que “quando o mal de um está no copo, o do outro está na garrafa”. Esse provérbio popular traduz a ideia de que ninguém está imune ao sofrimento ou às consequências dos próprios atos. O mal que hoje atinge a vida de um, cedo ou tarde, pode ser multiplicado e recair sobre o outro. É uma metáfora que ensina humildade. Se o vizinho está passando por uma provação, não se deve zombar, porque amanhã a mesma provação - ou até maior - pode estar reservada para os zombadores.
E a história recente do Brasil mostra como essa sabedoria popular se confirma. Jair Bolsonaro (PL), quando presidente, não cansava de ironizar a prisão do atual presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva. Dizia que Papuda estava pronta para recebê-lo, chamava Lula de presidiário e alimentava o discurso da exclusão moral e política do adversário. A roda da vida, porém, gira. E quem hoje carrega a marca de presidiário é o próprio Bolsonaro, condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e 3 meses de prisão nesta quinta-feira (11).
O destino, implacável, mostra que zombar da dor alheia é cavar a própria queda. Bolsonaro riu da desgraça de Lula, mas agora enfrenta a sua própria desgraça.
E não é só nesse episódio que a falta de sensibilidade do ex-presidente deixou marcas profundas. Durante a pandemia, mais de 700 mil brasileiros perderam a vida. Enquanto famílias choravam seus mortos, Bolsonaro fazia piada em live com quem estava sufocado pela falta de ar pela pela Covid-19. Negou a gravidade da doença, retardou a compra de vacinas e preferiu o sarcasmo à compaixão. O resultado foi uma tragédia humanitária, uma ferida que ainda sangra na memória nacional.
A lição que fica é a mesma que minha mãe ensinava seus filhos “o mal que está no copo do vizinho pode estar multiplicado em nossa garrafa amanhã. Bolsonaro riu quando a prisão era de Lula; agora amarga sua própria condenação. Riu da morte e do sofrimento durante a pandemia; agora é lembrado como o presidente da insensibilidade e do descaso.
No fim, a vida ensina que a ironia pode ser um veneno que, servido aos outros, retorna em dose dobrada para quem o destila.
Fonte/Créditos: Por Edelvânio Pinheiro
Créditos (Imagem de capa): dois momentos em que o presidente Jair Bolsonaro imita alguém sofrendo com falta de ar durante lives.