O prefeito Bentivi (PSB) anunciou que estará presente na sessão da Câmara Municipal de Itanhém nesta segunda-feira (23) sob o discurso da transparência. Disse que protocolou ofício para “prestar esclarecimentos”, que acredita que “a população tem o direito de saber a verdade” e que seu compromisso é com “a verdade dos fatos”. Palavras bonitas, sem dúvida. Mas quem conhece a história política recente de Itanhém sabe que Bentivi adora fazer esclarecimentos, mas quando o assunto não é a sua própria gestão.
Já que ele faz questão de convocar a população para ouvir a real situação financeira que encontrou ao assumir a prefeitura, nada mais justo do que aproveitar a tribuna e a presença da vereadora e ex-prefeita Zulma Pinheiro (MDB), que estará ali ouvindo, para explicar, com a mesma transparência que tanto apregoa, como ele próprio entregou a prefeitura na segunda vez em que deixou o cargo.
Porque o que Bentivi não conta, e a matéria publicada no Água Preta News em julho do ano passado já havia detalhado, é que ele não é nenhum novato em deixar contas atrasadas para os outros resolverem. Quando Zulma Pinheiro assumiu a gestão em 2017, além das pontes do município quase todas caíndo, herdou um cenário que o atual prefeito agora insiste em esconder, como dívidas com o INSS deixadas por ele, que resultaram no sequestro do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) por três meses, uma penalidade que paralisou as finanças municipais e dificultou o pagamento de servidores, embora Zulma tenha conseguido, com muito esforço, não deixar ninguém sem receber. Além disso, dívidas com a EMBASA e com a COELBA também compunham o pacote herdado pela prefeita na ocasião.
Bentivi gosta de falar em “gestões passadas” como se ele próprio nunca tivesse feito parte delas. Mas a história não começa no dia 1º de janeiro de 2025 quando que ele reassumiu a prefeitura. Ele já foi gestor, e sua passagem anterior deixou marcas profundas nas contas do município. Se hoje ele quer tanto explicar o que encontrou ao assumir o município de Mildson Medeiros (Avante), que explique também o que deixou quando saiu, especialmente naquela virada de ano de 2016 para 2017, quando, já fora do cargo, ainda operava os cofres públicos de maneira, no mínimo, curiosa, segundo declarações da ex-prefeita e atual vereadora Zulma Pinheiro, na sessão da Câmara do último dia 16.
Há um episódio emblemático que Bentivi nunca esclareceu como deveria: o caso do dinheiro da repatriação. Na ocasião, parte do montante foi sacado quando ele já não era mais prefeito, quando a gestão já era de Zulma Pinheiro, mas, mesmo assim, “foi sacado na boca do caixa do Banco do Brasil”, como explicou Zulma Pinheiro, ainda no primeiro dia útil de 2017, por cheques emitidos no último dia da gestão de Bentivi. Ou seja, recursos que pertenceriam a nova gestão foram consumidos antes mesmo de Zulma Pinheiro ter chance de administrá-los.
Se Bentivi hoje convoca a população para falar da “real situação financeira” que encontrou a Prefeitura de Itanhém, que ele tenha a hombridade de explicar por que, quando foi ele quem deixou a prefeitura, encontrou tempo para emitir cheques nos minutos finais do mandato e comprometer a gestão de Zulma Pinheiro.
O problema de Bentivi não é apenas a dívida que ele insiste em atribuir a terceiros. É o padrão que se repete: quando está no poder, ele omite; quando sai do poder, deixa rastros; quando retorna, aponta dedos. Agora, convoca a Câmara para um grande momento de “transparência”, mas, será que vai explicar à população por que, em 2017, a prefeitura amargou bloqueios do FPM por dívidas deixadas por ele? Será que vai esclarecer o episódio dos cheques da repatriação lamentados pela ex-prefeita?
A população de Itanhém tem, sim, o direito de saber a verdade. Mas a verdade completa, Bentivi. Não apenas a versão que interessa a você e ao seu grupinheiro formado para vencer licitações. Se você quer tanto falar de responsabilidade administrativa, que comece assumindo a sua responsabilidade, inclusive aquela que antecede o seu retorno ao cargo, que tanto causou problemas à gestão de Zulma Pinheiro.
A tribuna está livre. A vereadora Zulma Pinheiro estará presente. E os itanhenses, que já conhecem bem os capítulos anteriores dessa história, estarão atentos para ver se, desta vez, o discurso da transparência vai, enfim, incluir o passado de quem hoje tanto cobra explicações.