Não há como ignorar a ironia da política de Itanhém quando Milton Ferreira Guimarães, o Bentivi, do PSB, hoje prefeito pela terceira vez, acusa o ex-prefeito Mildson Medeiros, do Avante, de improbidade administrativa, como se tivesse autoridade moral para isso. É o velho ditado popular ganhando forma na terra de Água Preta, que Simplício Binas ajudou a construir: é o sujo falando do mal lavado.
A atual gestão ajuizou uma ação contra Mildson alegando que mais de R$ 1,5 milhão “desapareceu” da conta de um convênio destinado à construção de 44 unidades habitacionais. No entanto, a própria narrativa construída pela prefeitura não resistiu ao crivo do Ministério Público. O promotor Fábio Fernandes Corrêa achou a acusação mal contada e, por isso, não viu motivo suficiente para bloquear os bens do ex-prefeito. Afinal, contas públicas são rastreáveis; e o dinheiro, por mais que tenha sido sacado ou transferido, não desaparece como mágica. Segundo o promotor faltou o básico, os extratos bancários.
Apesar de uma acusação muito séria contra Mildson Medeiros, a iniciativa da ação por Bentivi pode soar como cortina de fumaça de um gestor que, ao invés de apresentar avanços concretos para a população, tenta manobrar o debate público contra seus opositores, mesmo quando pesa contra ele um passado nada exemplar.
Todos se lembrar que Bentivi, a irmã Isabel e a ex-tesoureira Nájlla de Cássia são réus em um processo que investiga fraudes em licitações, contratações irregulares e favorecimento a empresas da própria família, com um prejuízo estimado em quase R$ 1 milhão [sem reajuste] aos cofres públicos durante a gestão 2009-2012. A denúncia não é nova. Está lá no Tribunal de Justiça da Bahia, para onde a ação criminal foi retornada após Bentivi reassumir o cargo de prefeito em 2025.
Mas não é só o passado administrativo de Bentivi que condena. Mesmo após se tornar réu por beneficiar parentes com dinheiro público, Bentivi continua desafiando e fazendo exatamente o mesmo. Já em seu novo mandato, empenhou valores altos em nome da empresa da irmã, para compra de uniformes, e outros valores para o sobrinho que trabalha com sonorização. Ou seja, repete com naturalidade os mesmos erros que motivaram a denúncia anterior. Em vez de romper com práticas que envergonham a administração pública, parece reafirmá-las como método de governo.
A incoerência da gestão Bentivi chega a ser ofensiva. Como pode um prefeito com esse histórico — e que ainda pratica os mesmos atos — acusar outro gestor de improbidade como se fosse guardião da ética e da moralidade? O MP, com lucidez, não entrou nessa armadilha. Recusou-se a endossar a tentativa de vingança política disfarçada de zelo pelo erário.
A população de Itanhém merece mais. Merece respeito, gestão transparente, e não uma guerra de versões onde todos os lados estão enlameados. Que se investigue o ex-prefeito todas as vezes que houver motivos. Mas que se investigue também, e com igual rigor, o prefeito em exercício. Bem que Mildson poderia acionar advogados para acompanhar o andamento desses processos contra Bentivi no TJBA. A população de Itanhém vai agradecê-lo muito.
Fonte/Créditos: Por Edelvânio Pinheiro
Créditos (Imagem de capa): Foto: Bentivi e Mildson Medeiros