Só agora terminei a leitura dos dois volumes do último livro de Ariano Suassuna, "Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores", uma obra que foi concluída poucos dias antes da morte do mestre paraibano. Trata-se de um testamento literário que integra, com maestria, elementos do teatro, da poesia, da prosa de ficção e do ensaio, condensando a genialidade desse homem que além de escrever histórias, filosofou sobre o Brasil e, em especial, sobre a alma do povo do nordeste do país.
Sou um apaixonado pela obra de Ariano. Às vezes, fico horas rindo com suas entrevistas e falas, encontradas no YouTube, pois ele tinha um humor refinado e originalmente nordestino e uma capacidade incomum de desmontar falácias e expor hipocrisias. Recebeu inúmeros títulos ao longo da vida, mas talvez, o mais merecido tenha sido o de filósofo brasileiro. Afinal, poucos escritores mergulharam tão profundamente na essência de um povo como ele fez.
Na obra de Ariano, é possível perceber sua simpatia por um tipo muito específico de mentiroso: não o vigarista, não o estelionatário, mas o mentiroso inofensivo, o contador de causos, aquele que, para escapar de uma enrascada, cria uma narrativa improvável, mas sem qualquer intenção de causar dano. Esse mentiroso criativo e folclórico é bem diferente do mentiroso inescrupuloso que tomou conta da política itanheense nas últimas décadas.
Se é verdade que a política de Itanhém nunca foi um mar de honestidade, também é verdade que os padrões foram rebaixados a níveis alarmantes depois da era Gedeon Botelho e Neco Batista. Não que esses dois fossem exemplos de retidão – longe disso –, mas o que se vê hoje é um esquema institucionalizado de mentira e enganação. A política se transformou num teatro farsesco onde os protagonistas fingem representar os interesses do povo, mas na verdade são apenas atores de um espetáculo sujo, cujo enredo é o enriquecimento ilícito, o favorecimento de familiares e amigos e o uso da máquina pública para perpetuação no poder.
Itanhém se tornou um palco de promessas vazias, onde cada eleição é a repetição da mesma peça teatral: discursos emocionados, juras de compromisso com o desenvolvimento e, claro, a velha ladainha sobre amor ao povo. Tudo embalado por uma trilha sonora estratégica, capaz de despertar emoções e manipular sentimentos.
A música pode apelar para o sentimentalismo, com versos como "Faz um coração, faz um coração", tentando envolver o eleitor desavisado. Ou então provocar um frenesi coletivo, como em "Ô painho, aqui nessa cidade só tá dando amarelinho, painho", agitando os eleitores politicamente despreparados. E há sempre a tática do martelar de forma incessante, com jingles que repetem exaustivamente o número do candidato: "É o 15, é o 15, é o 15, é o 15, meu povo!", tentando se fixar por osmose na mente do eleitorado desorientado, que, em tempos de eleição, se torna presa fácil para essas artimanhas.
Mas, passadas as eleições, a realidade se impõe. Os pobres continuam pobres, os desempregados continuam implorando por um mísero emprego de um salário mínimo, enquanto os donos do poder seguem aumentando os hectares da fazenda e acumulando mais cabeças de gado, abrindo novas empresas e, claro, distribuindo privilégios entre os amigos e familiares.
A tramoia, porém, tem prazo de validade. A história já nos mostrou que, por mais que os canalhas acreditem que podem escapar da verdade, ela sempre encontra um jeito de se impor. Os mentirosos de hoje, que fazem da desinformação uma estratégia política, serão desmascarados — pelo Ministério Público, pela Justiça, pelo próprio eleitorado e, inevitavelmente, pela justiça divina, que não falha. E quando esse dia chegar, que não tentem se fazer de vítimas, pois só encontrarão o desprezo e a condenação moral de um povo exausto de tanta enganação.
Se Ariano Suassuna estivesse entre nós, talvez dissesse que os políticos de Itanhém não são nem ao menos mentirosos criativos. São apenas repetidores de um script previsível, medíocres em sua falta de vergonha e cruéis em sua exploração da miséria alheia. Mas, como nos bons romances e nas boas tragédias teatrais, a mentira nunca sustenta um enredo por tempo demais. O desfecho pode até tardar, mas será inevitável.