Nesta sexta-feira da Semana Santa, a população de Itanhém foi decepcionada com a ausência da quase tradicional distribuição de peixe feita pela prefeitura. Uma prática que, mesmo sendo simbólica, sempre teve seu valor, especialmente para as famílias mais humildes.
Nas redes sociais, viralizou o áudio de um cidadão conhecido na cidade como Louro Carroceiro, apoiador do prefeito Bentivi.
“Vamos dar o peixe não, nós vamos dar o anzol pra poder pescar”, disse ele. "Se dar o peixe fica muito fácil, tem que dar o anzol pra ele poder pescar; dar o anzol e aí agora ele vai se virar para pegar o peixe dele", completou.
A frase talvez ganhasse destaque se tivesse um teor filosófico, mas, na verdade, revela apenas uma insensibilidade desconectada da realidade de quem passa fome.
Lamentável ouvir isso justamente de Louro, um trabalhador que, como tantos outros, conhece a dura realidade de sobreviver em uma cidade onde as oportunidades são poucas e mal distribuídas. Louro já foi carroceiro – e aqui é importante lembrar que ser carroceiro é um ofício digno, como qualquer outro que sustenta famílias honestamente. Hoje, com seu caminhão, sobrevive prestando serviço à Prefeitura de Itanhém, mas parece ter se esquecido das dificuldades que enfrentou enquanto puxava carroça pelas ruas da cidade.
Talvez o contrato de prestação de serviços com a Prefeitura, desde a gestão anterior, tenha anestesiado sua visão de mundo, fazendo-o esquecer que nem todo pobre teve as mesmas oportunidades que ele. Muitos sequer têm o pão de cada diia — quanto mais uma “vara” para pescar o próprio sustento. Note que o vocábulo vara está grafado aqui entre aspas para deixar claro que entendi muito bem a metáfora utilizada por Louro Carroceiro em seu áudio.
E é justamente aqui que entra a contradição: a vara de pescar, da qual Louro tanto fala que foi dada por Bentivi, não foi entregue ao povo. Essa vara, na verdade, foi oferecida com zelo a empresários amigos, financiadores de campanha e a um seleto grupo de bajuladores políticos.
O povo, esse sim, continua sem o peixe, sem a vara e, muitas vezes, até sem o rio para pescar.
Louro Carroceiro, hoje, age como se fosse porta-voz de uma gestão que nunca foi do povo. Uma gestão que emprega os seus, mesmo quando incompetentes, e ignora os que realmente precisam. Uma gestão que não apresenta projeto concreto de combate à fome, à miséria, à falta de moradia e ao caos da educação e da saúde pública. A fala de Louro, lamentavelmente na Semana Santa, além de infeliz, reflete uma lógica perversa, a de que o pobre deve se conformar com a miséria e ainda agradecer por isso.
E enquanto Louro defende a teoria do anzol, vemos nas redes sociais uma avalanche de críticas à gestão de Bentivi e, ao mesmo tempo, elogios ao ex-prefeito Mildson Medeiros. Mesmo fora do cargo, Mildson continua recebendo, todos os dias, pessoas em busca de ajuda – como fazia enquanto era prefeito. Ele também distribuiu peixe nas Semanas Santas passadas, mantendo viva uma tradição que vai alem do simbolismo e que representa respeito e empatia com os mais pobres.
É triste ver alguém do povo, como Louro Carroceiro, usar sua voz para atacar a própria classe. Seu posicionamento serve apenas para reforçar a lógica da submissão; a lógica de que, em troca de um contrato ou de favores, vale a pena fechar os olhos para a realidade da maioria dos amigos com quem cresceu e até com a triste realidade de familiares.
Que Louro Carroceiro reflita. Que se lembre de sua origem e de sua trajetória. Que compreenda que ter um trabalho ou prestar serviço a uma prefeitura não significa ser escravo político de Bentivi, de Mildson e de ninguém. E que entenda que, ao defender quem governa apenas para os ricos, ele ajuda a manter os pobres cada vez mais distantes do peixe… e da vara de pescar também.